sexta-feira, 18 de junho de 2010

10.05 - OS MEUS AMIGOS * Silas Corrêa Leite - Saramago



S A R A MA G O
(18.06.10)




“O mundo existe para terminar num livro” 

Mallarmé 



Morreu Saramago 
Em seu mundo nunca dantes navegado 
No entorno de lágrimas de Portugal 
E muito além do chão letral dos lusonautas 
Numa intermitência telúrica 




Morreu Saramago 

O criador de um verbo alumbrado 
Sua literatura esplende, arrebata 
Num mundo globalizado – e insano 
Muito além de seu tempo 




Morreu Saramago 

Entre seu palavrear de luz e sangue 
Densos Tejos que ainda rebrilham 
Em lágrimas que verteram seu espírito 
Procissão de excluídos 




Morreu Saramago 

Que nos viçou em língua mátria 
A sociedade sórdida: e o que somos 
Ovelhas perdidas de uma manada 
Contra a qual lutava... 




Morreu Saramago 

O ser humano historial, o homem bandeira 
Que na mão esquerda ainda tem uma roseira 
Que dá flores rubras a vida inteira 
Levantado do chão, nos ares 


AINDA VIVE SARAMAGO!




Silas Correa Leite, 

Santa Itararé das Letras, 
São Paulo, Brasil 



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quinta-feira, 25 de março de 2010

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * O caminheiro




De bordão e de sacola,
meti pernas ao caminho,
só querendo por esmola
o calor do teu carinho.

Meus anseios e desejos,
num ardor insatisfeito,
são a fome dos teus beijos,
no delírio do teu leito.

Sei que estás à minha espera,
não sei onde, mas confio...
Na verdade da quimera,
eu aceito o desafio.

Sem bússola nem cansaço,
sou caminho, passo a passo!



José-Augusto de Carvalho

11-12/5/2006.
Viana * Évora * Portugal

terça-feira, 23 de março de 2010

10.04 - OS MEUS AMIGOS * João de Sousa Teixeira

Como cão

Foto de meu cão Apolo, 2008

Como te invejo amigo cão,
o teu sol e mesmo o teu osso;
não a coleira do pescoço;
a condição.

Como te invejo o faro, irmão!
Cheirar até o bafo de deus,
seres tu por mim alguém e eu
o cão.

Como te invejo, meu ciúme é vasto:
o amor que fazes à minha frente,
uivar, ganir como um demente
e casto.

Como te invejo e te gabo,
como os que, não sendo cão,
pedem guloseimas e dão
ao rabo.

Como te invejo o dobrar do sono,
ladrar a quem me apetecer
e, se for preciso, morder
o dono.


João de Sousa Teixeira

sexta-feira, 19 de março de 2010

10.05 - OS MEUS AMIGOS * Silas Correia Leite


Casa da Mãe

Poema homenagem

Para Eugênia de Oliveira Correa Leite, In Memoriam

Ir para casa e não ver a Mãe
É não estar em casa.
Ir para Itararé e não estar com a Mãe
É não estar em mim.
Ir para a Mãe e a Mãe não estar lá
Já é quase morrer.

Porque a casa e a Mãe se completam
Uma está em outra para assim muito bem estarmos em nós
E não encontrando a Mãe em casa
Podemos também não nos encontrarmos nunca mais.

Porque a casa-mãe-Itararé
É tudo uma soma de estarmos em nós mesmos
E da Mãe estar na casa e a casa ser a Mãe
Onde quer que a Mãe esteja.

Talvez, também, por isso é
A Casa, a Mãe, tudo - Itararé
Parte de nós. Como lágrimas no céu; como uma Igreja.

-0-

Silas Correa Leite,

Poetinha da Estância Boêmia de Itararé-SP

domingo, 14 de março de 2010

14 - ESCAPARATE * Conceição Paulino * «O meu cancioneiro»

Viana do Alentejo, 19 de Setembro de 2009
Texto de apresentação de “O meu cancioneiro”, 
de José-Augusto de Carvalho

Ao lermos um livro, há sempre muito do autor – da pessoa que é – que para nós passa. Que captamos – assim o julgamos. Que me desculpe José-Augusto de Carvalho a ousadia, mas sobre ele quero dizer algumas palavras.
José-Augusto de Carvalho é, em minha opinião, um homem fora do tempo. De outra geração embora, como meu pai, é um homem de valores, convicções e…palavra. Daí o desfasamento com o tempo que vivemos encontrado na sua escrita porque por si vivenciado. A palavra dada vale tudo. O aperto de mão substitui notários. Os valores que o sustentam são tão válidos no tocante à sua pessoa e vida como à de qualquer outra pessoa. José-Augusto de Carvalho sabe, com um saber da alma, que somos o resultado de tudo e de todos que nos antecederam – daí a importância dada à nossa história e a estas antigas e belas expressões poéticas com que elaborou este Cancioneiro. Sabe, acima de tudo, o sentido e o valor da “alteridade”. Sabe que ele é o outro, da mesma forma que o outro é, ou pode ser, a qualquer momento, ele/cada um de nós. Por isso, os seus sonhos e projectos são-no no colectivo. Nunca por ambição pessoal. Para si não quer nada que não queira para todos nós.
Passemos ao Cancioneiro que hoje se apresenta:
Fernando Pessoa afirmou que a poesia é uma forma de prosa em que se cria um ritmo artificial, através de: 1) pausas especiais – diferentes das que a pontuação define - embora, por vezes, possam coincidir; 2) escrita do texto em linhas separadas, denominadas versos. Desta forma, o autor/poeta cria 2 tipos de sugestões características à escrita poética: Sugestão rítmica/métrica, de cada verso por si; Sugestão tónica incidindo na última – ou única palavra do verso (se for o caso).
Uma questão se levanta: porque sente o poeta a necessidade de criar um ritmo artificial? É bem simples a resposta – porque a emoção intensa não cabe numa simples palavra, daí a necessidade de criar uma musicalidade rítmica exterior à palavra – só por si – mas que desta forma é contida no verso, no poema, como se num cálice. Ou, dito de outra forma: a poesia é uma forma de música feita com ideias em vez de só com emoções. As emoções transmutam-se em ideias que se expressam – melodicamente/ritmicamente/musicalmente – através das palavras. Toda a ideia perfeitamente concebida é rítmica, por si e em si, e é isso que José-Augusto de Carvalho, mais uma vez, nos oferece com este Cancioneiro. O ritmo, a rima, a estrofe são instrumentos disciplinadores da emoção de forma a exprimi-la não na forma tumultuada que é própria das emoções, mas num grau superior de controlo imposto pela disciplina destes 3 elementos: ritmo, rima, estrofe! Em síntese, afirmo que um poema é a projecção de uma ideia por palavras, mediadas pela emoção.
Com este Cancioneiro, explorando a poesia trovadoresca nas suas 4 vertentes: Cantigas de amor, Cantigas de amigo, Cantigas de escárnio e mal dizer e rimances, o autor presta homenagem aos trovadores medievais e lembra-nos: a existência dos testemunhos poéticos por eles deixados, por aí abandonados e cobertos de pó por falta de leitura; a necessidade de a eles voltarmos; a necessidade de os ler e reler, para melhor nos compreendermos enquanto povo, enquanto nação com um quadro cultural e histórico próprio que aí encontra clara e ilustrativa síntese evolutiva.
[Deixem-me fazer um breve aparte a respeito do “cantar de amigo” que constitui uma variedade poética da produção lírica portuguesa originária da Idade Média.
Esta composição enquadra-se na original poesia trovadoresca Provençal, do sul de França, mas é uma construção poética peninsular que detém a particularidade de conferir o estatuto de enunciação à mulher, embora fossem sujeitos masculinos a compô-la. O cantar de amigo são cantigas de origem popular, com marcas evidentes da literatura oral utilizando recursos próprios dos textos para serem cantados - ainda hoje utilizados nas canções populares - e que propiciam facilidade na memorização.]
Neste Cancioneiro, José-Augusto de Carvalho pega, com mestria, nas quadras em redondilha, maior e menor, nas estrofes e nas sextilhas, usa sabiamente o ritmo e a métrica para, numa linguagem actual, entrosar passado, presente e futuro deste povo que somos. Os grandes momentos definidores da nossa identidade --- porque é disso que se trata nesta obra aqui ofertada a todos – de reconhecer, aceitar, acarinhar e manter a nossa identidade que de Castela nos separou --- são abordados: desde as batalhas, Álcacer-Quibir, Salado, Aljubarrota, às cruzadas – fora e dentro do espaço que hoje constitui o Portugal luso; “A dívida”, pg 38, em que enuncia as batalhas Aquém Tejo e Além do Tejo – dado que a Portugalidade se estende por muitos continentes aos nossos mitos e lendas; ao Bandarra e sua adivinhação; aos milagres estruturantes do simbólico na nossa cultura.
Dedica o poema “Quase uma oração", pg 40, a um tema tão português como “SAUDADE”. Desmonta o conceito em várias das suas vertentes, ou dimensões. “Saudade palavra linda…”, mas linda, porquê? Porque alimenta a esperança do retorno e do reencontro. Mas o mesmo sentimento, saudade, cria ansiedade, desesperança, angústia: “ …E a desventura detenha / p’ra que no peito eu mantenha / a bater, meu coração." (…)” Na última estrofe deste poema pede alento a Deus pois a dor é tão grande que se torna destruidora. O autor implora que este sentimento se transforme. Mostra-nos a saudade como algo potencialmente transformador: “ Ai, que esta dor que alimento / seja, na massa o fermento / do pão da vossa clemência.”
Nas Cantigas de Escárnio e Mal Dizer, em “Coisas do reino”, pg 45, se trocarmos: “…corredores do Paço” por corredores do poder, vemos e lemos um retrato actual do país. No seu olhar sobre o Natal (2 poemas nas pg 48 e 50), não deixa passar o modo tão português de dizer lamentando: “vamos indo, menos mal…”, nem deixa passar a hipocrisia que na época é recoberta pelo desejo /”momento anual/de nos sonharmos natal”. “É a visita anual/ a cumprir a tradição(…)/De Jesus nem um sinal(…)/o sonho, de rastros,/espezinhado mal brilha.”
E diz, pg 48, "que nos valha a gulodice(…) / Festejai, que é de bom tom! / Vinte e quatro horas de amor! / Abaixo o mau! Viva o bom!" Depois, novamente a dor, "A preto e branco e sem som”.
No poema À sombra do campanário, pg 51, o poeta faz a ronda pelas festas – Natal, Quaresma, Carnaval – mostrando-nos com o seu olhar acutilante e crítico como “…nesta monotonia, / à sombra do campanário, / se vive e pouco porfia, / ao sabor do calendário.” Como se as nossas vidas fossem um baile mandado à voz do mandador que estipula os nossos momentos e estados de espírito.
Em Engano Triste, pg 20, o poeta, do corpo faz o “convento” ou, figurativamente, o convento é o corpo; no poema “Enquanto a vida for vida!, pg 22, aborda um tema actual sobre o direito à vida, questionando-se, e a nós, sobre o que devemos ou não, considerar VIDA. A questão do direito a viver com dignidade, questão que tão escamoteada é na nossa sociedade.
Neste belo cancioneiro, do intimismo da alma, num registo mais pessoal, ressoa forte um grito humano e social a que não podemos ficar indiferentes se queremos que A VIDA SEJA VIDA e não seja um qualquer ZAGAL a comandar-nos.
Obrigada a todos por aqui estardes.
José-Augusto, obrigada por me convidares a falar sobre este belo e profundo Cancioneiro.


***
Conceição Paulino nasceu em Beja em 1945, na Freguesia de S. João Baptista. Reside em S. Mamede de Infesta há 36 anos.
Teve envolvimento político no distrito do Porto e no concelho de Matosinhos onde reside e deteve cargos autárquicos.
No plano cívico, fez parte dos corpos de algumas associações culturais e educativas.
Por ora atém-se ao envolvimento cívico. Licenciada. Exerceu durante os últimos sete (7) anos funções docentes no ensino superior.
NO PLANO LITERÁRIO:
Colaborou, durante 7 anos, com crónicas quinzenais no Jornal regional Matosinhos Hoje; fez recensão no extinto Jornal de Letras (Porto);
foi colaboradora ,com recensão e poesiam nas revistas Património XXI e Sol XXI e fez parte da direcção do núcleo do Porto da Associação Sol XXI.

sábado, 13 de março de 2010

10.05 - OS MEUS AMIGOS * Silas Correia Leite

Pequena Resenha Crítica:“Da Humana Condição”Novo Livro de Poemas de José-Augusto de Carvalho, de Portugal
“É na regularidade da paisagem, e, por extensão, da descrição poética dela, que nos deparamos com o inusitado que quebra a expectativa e faz peculiar a poética (...) –

Ademir Demarchi – Escritor e Editor da Revista Babel

Além da belíssima apresentação gráfico-estética da edição (Edium Editores, Portugal, Estúdios da Edium Editores, Março 2008), o livro de poesia “Da Humana Condição” de José-Augusto de Carvalho, de Portugal, é uma nova excelente coletânea de poemas novos, de sua mais recente safra como sempre fora de série. Janelas – tábuas de esmeraldas? – de águas e lodos, de apontamentos e desapontamentos, da própria humana condição revisitada com olhares poéticos lustrosos (para o bem e para o mal), registrando verbos, lavas, larvas, perdições, análises em rotas letrais próprias, sensíveis. Tristemente sensíveis. A esperança já não se renova a cada dia, ou a esperança é a inteligência da vida?. Ou um experiente olhar afinado, como o do autor poeta, depurando a realidade, é também olhador de tudo de ruim e pressente para onde caminha a humanidade, em sua condição de caos anunciado, caos urbano, arrebentações de toda ordem? Ler e refletir sobre.
Pinturas literais de seu tempo se afinando, na medida do possível com os olhares severos fazendo releituras, tocando destemperos, fermentações, tristezas, utopias. Xavier Zarco (Coimbra), muito bem o define: “Poemas no seu esplendor (...) Não podemos manter o olhar cerrado (...) A condição humana se desnuda perante o nosso olhar (...)” Panoramas, nostalgias, banzos literários dentro de óticas humanistas: “...O verbo unindo horizontes/Com as cinzas ergueu pontes/De constante renascença” (pg. 57). Soberano no estúdio de sua alma, amargo ou crítico, ou na inevitável sofrência própria dos seres extremamente lúcidos para esses tempos tenebrosos (a pós-globalizaçao do crime organizado do neoliberalismo como um câncer social em detrimento do chamado humanismo de resultados), segue José-Augusto determinado, consciente e sábio o amigo virtual (lincado nesse mundo pelas infovias da net/web); mas também raro e rico amigo livral (presencial pelas obras portentosas que generosamente nos envia), José-Augusto de Carvalho está cada dia mais profícuo; cada dia melhor nos acabamentos, no auge criacional de sua vida-livro, inclusive com os seus novíssmos e importantes poemas que o retratam altamente produtivo, já que regulamente nos envia por e-mail suas produções e derramas, como um achador residual de se colocar na vida como parte alegre-triste dela, lendo a vida contemporânea, a dolorosa tábua da vida, como um testemunho de sua própria afirmação como ser entre os que se parecem com alguma coisa próxima do Ser (inclusive e principalmente socialmente falando), dando registro sério de sua época, de sua existência como ser humano e como humanista, ainda delatando os contrastes de seu tempo com olhares que estão acima dos campos de lavanda dos sonhos. José-Augusto de Carvalho nasceu em 20/07/37, em Viana do Alentejo, Portugal, tem já outros importantes livros como: Arestas Vivas (1980), Sortilégio (1986), Tempos do Verbo (1990), Vivo e Desnudo (1996), Nós Poesia (2002, como Lizete Abrahão), A Instante Nudez (2005) que tive o prazer de resenhar (um dos melhores livros de poemas que li em minha vida), e agora este seu da “Humana Condição”. Espero (esperamos) que José-Augusto de Carvalho continue com seu tear, na lida, pois o enorme prazer da leitura que nos encanta com trabalhados versos de qualidade, além do acabamento gráfico-editorial o que nos apresenta o trabalho literário de cara e capa, na beleza da obra que se reafirma pelo conteúdo enquanto riqueza lítero-cultural de um poeta na mais bela condição humana de poetar com gabarito e quilate: “As vezes o silêncio esmaga/O tumulto das palavras (Verbo de Pedra, pg 51). O livro é um atual depoimento poético “de homens em tempos sombrios”, para lembrar Hannah Arendt, em Entre o Passado e o Futuro/A Condição Humana.
*
Silas Correa Leite,
Itararé, São Paulo, Brasil
22/5/2008

sexta-feira, 12 de março de 2010

10.03 - OS MEUS AMIGOS * Vanderley Caixe

Sabe!



As vezes me sinto idiota ou maluco. Paranóico ou psicopata.
Abro os jornais, vejo na televisão, vejo corpos estirados, bombardeios de urânio empobrecidos, vejo cinzas de outroras gentes,crianças rotas como roupas esgarçadas,vejo mulheres novas e velhas chorando sobre defuntos filhos, maridos ou pais.
Todos os dias vejo as teorias que tentam justificar mortes, assassinatos em massa, genocídios , destruição de raças.
Meus olhos covardes embotam o meu espírito em lágrimas. Me chamam de covarde.
Vejo o governo norte americano, me recordo da leitura do pretenso terceiro Reich.
Judeus nazistas ocupando espaços nas listas, genocídios de palestinos.
Sonho a iraquiana que está em seu país chupando a bomba invasora norte-americana, sobre os escombros putrefatos ao seu nariz.
Participo com o supremo gesto da vida sacrificada no terror. Um último instante da bomba explodir, um resto de desespero contra a industria de armas.
Meu corpo vira arma, a arma do pobre, a arma do invadido, a arma dos que tem seus filhos destroçados.
Somente tenho meu corpo e uma alma de luta contra o império que veio à minha terra matar, nossas riquezas sugar.
Perdoe-me Deus, perdoe-me Alá.
Sou gente, não sou covarde, não importa que a imprensa deles diga.
Minha luta estará lá.

Vanderley Caixe
28 de Agosto de 2004.
Ribeirão Preto*SP-Brasil