quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

14 -ESCAPARATE * Pátria Transtagana, em Estremoz

Biblioteca Escolar Almeida Garrett, 11/12/2014

Da nossa esquerda para a direita.
Coronel João Andrade da Silva, José-augusto de Carvalho,
Professora Rosa Barros e Professora Doutora Maria do Céu Pires


Aqui deixo aos prezados leitores deste espaço o texto da minha intervenção:

11 de Dezembro de 2014, em Estremoz!

Entendeu a vontade dos homens que eu buscasse longe o que o nosso pátrio Alentejo me devia.
A vontade dos homens que tinham poder para impor a sua vontade aos outros.
A vontade dos homens que determinavam que a nossa amada Pátria Transtagana recusasse a muitos dos seus filhos o direito natural de viver na sua terra.
Lá fui! Segui de comboio até ao Barreiro; cruzei o rio Tejo; chegava a Lisboa. Deixava para trás o meu mundo e a minha gente.
Difícil é viver em terra estranha!
Lisboa acolheu-me, indiferente. Mais um, menos um, na migração, não aquentava nem arrefentava, no dizer de Mestre Aquilino, ainda que noutro contexto.
Por lá vivi quarenta e dois anos, sempre sonhando regressar. E o sonho ganhou forma e realidade em Junho de 1996.
Ganhei a vida, estudei por conta própria o que mais me interessava, aprendi o pouco que sei. E escrevi versos e mais versos; e publiquei três livros: arestas vivas, 1980; sortilégio, 1986; tempos do verbo, 1990.
De 1961 a 1973, trabalhei graciosamente no jornal República, mais exactamente no Suplemento República das Letras e das Artes, sob a responsabilidade do poeta Alfredo Guisado, amigo de Fernando Pessoa e seu companheiro na aventura do Orfeu, em 1915.
Neste suplemento publiquei, em Outubro de 1969, apanhando a Censura distraída, o meu poema «O maltês». Vivia-se, então, em período de campanha eleitoral. Foi quando votei pela primeira vez. Teria de esperar por Abril de 1975 para votar de novo.
Foi com «O maltês» que terei conquistado alguns benevolentes leitores.
Aqui fica o poema:

Já fui maltês e ladrão
de quanto me foi roubado.
Meu covil foi o montado;
meu camarada, o suão.

Fui livre à minha maneira,
como um homem deve ser;
a lei dei a conhecer
da mira da caçadeira.

Por roubar o que era meu,
nas malhas bem apertadas
das baionetas caladas
caí num dia danado,
mas contas ninguém me deu
de quanto me foi roubado.


Em  25 de Abril de 1974, acreditei na Primavera!
E acreditei nos homens que traziam a esperança!
Ah, mas Abril, logo no seu primeiro dia de Primavera, sangrou às mãos dos esbirros da negação!
Aquele dia inesquecível chorou a morte matada de alguns que tão pouco viveram para glorificar a aurora!
Em Lisboa, vivi a alegria de ver gente da nossa gente transtagana na luta honrada e nobilíssima de despertar um povo da longa noite da negação da Vida.
Meus amigos, gente da nossa gente, a mesma que tombou em Atoleiros, que tombou em Aljubarrota.
Gente da nossa gente, a mesma que tombou em Évora, em 1638, anunciando a futura Restauração, em 1640!
Gente da nossa gente que tanto contribuiu para que o despotismo ajoelhasse sem condições na nossa Evoramonte, em 1834!
Desta nossa gente me reclamo!
Esta gente que é nossa e que glorifico por ter sempre cumprido o seu dever nos campos, nas minas, nos mares, nas demais actividades que a divisão social do trabalho exige, na luta armada, na dádiva suprema do sangue derramado por si e pelos outros.
Por tudo isto, o meu dever de amar e de cantar, como posso e sei, a Pátria Transtagana.
E neste meu amar e neste meu cantar glorifico igualmente todos os compatriotas da Pátria Portuguesa que tudo deram de si para que todas as regiões, que não apenas a transtagana, sejam parte da Humanidade em movimento rumo à dignificação humana.
É nas horas difíceis que o Homem se transcende. Assim foi no passado que recordamos com emoção; assim será neste presente que vivemos.
Vivi o último momento de emoção até às lágrimas em 1974, quando a Revolução dos Cravos devolveu a todos nós uma Pátria Livre. Como escrevi recentemente…

Nostalgia

Mais um Inverno frio nos deixava…
Mais uma Primavera prometia…
E sempre uma esperança pontilhava
de estrelas este céu que se fechava
ao rútilo esplendor dum claro dia!

E sempre esta esperança que morria
em cada frustração que nos matava!
E sempre o desespero arremetia
na força renovada que nos dava
a Fénix que das cinzas renascia!

Ai, tanto se morria e renascia!
E sempre esta esperança acalentava.
Que fértil terra de húmus e porfia
a força dava à força que faltava
nas horas em que a vida mais doía?

De sangue e desespero se amassava
o pão que noite adentro se comia!
De sol a sol, o corpo tudo dava
a troco duma jorna que minguava
enquanto o desespero mais crescia.

Ah, mas, na sombra, a noite murmurava
enleios, numa terna melodia!
E antes de adormecer, já madrugava
nos versos da canção que prometia
livre e fraterna a terra que chegava!

Chegava a Liberdade que cantava
lusíada, em feliz polifonia,
o fim do pesadelo que matava
no dia todo em luz que despertava
a vida que chorava de alegria!

O pátrio povo em armas devolvia
o berço que das trevas libertava
ao povo que sem armas acudia.
E um povo todo irmão se estremecia
no imenso e terno abraço que se dava.

Navegar é preciso, prometia,
agora que o viver se precisava!
Nos braços embalada, a pátria ouvia!
E quanto mais ouvia mais se dava
ao sonho que se ousava e florescia.


José-Augusto de Carvalho


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

10.01 - OS MEUS AMIGOS * José Augusto Carvalho


ASSÉDIO SEXUAL


José Augusto Carvalho



Burro por onde passa deixa a marca da ferradura. 

*

Johnathan tinha quase sete anos. Era puro, era pequeno, era criança. Não tinha ainda sete anos.

A escola de Johnathan, em Lexington, na Carolina do Norte, era bonita. Talvez fosse a mais bonita daquela pequena cidade americana, plantada no condado de Davidson.

E era bonita porque Johnathan tinha quase sete anos.

A cidade de Johnathan era pequena e era bonita. Não era talvez a menor de todas, mas era talvez a mais bonita de todas as cidades pequenas e bonitas que há nos Estados Unidos.

E era bonita porque Johnathan tinha quase sete anos.

A sala de aula de Johnathan era pequena. Nela só havia vinte alunos. Todos pequenos, todos crianças, todos com sete anos ou com quase sete anos. A diferença de idade entre o mais novo e o menos novo de todos não chegava a cinco meses.

Johnathan tinha quase sete anos, e era feliz, como todos os seus colegas de classe, como todas as crianças que têm pais que as amam e lhes dão carinho.

No dia 26 de setembro de 1996, Johnathan estava ainda mais feliz, porque era seu aniversário: ele estava completando sete anos de vida... Então ele olhou para a menina bonita que estava sentada ao seu lado, e quis manifestar sua alegria, dando-lhe um beijo no rosto.

Mas a professora viu. A professora de Johnathan não era feliz. A professora de Johnathan não era beijada por ninguém de sua idade. A professora de Johnathan não se lembrava mais da última vez que recebeu um beijo de alguém de seu tamanho. Por isso, a professora de Johnathan ficou com inveja e com raiva.

A professora de Johnathan decretou que Johnathan era um menino pecador e pôs Johnathan para fora de sala. A professora de Johnathan foi à direção da escola para dizer que Johnathan tinha praticado um crime chamado “assédio sexual”. A diretora da escola de Johnathan também tinha saudades do último beijo que havia recebido, e por isso também tinha raiva e inveja das pessoas que eram amadas e não tinham vergonha de ser felizes. A porta-voz das escolas públicas de Lexington, Jane Martin, apoiou a professora e a diretora, porque o regulamento da escola é de conhecimento dos pais.

Johnathan foi alvo de risos, de zombarias, de chacotas, de piadas. Ele vivia no país mais poderoso do mundo. Tão poderoso, que até um beijo de criança tinha sabor de pecado grave. Johnathan não podia mais ficar em Lexington, e teve de mudar-se de cidade, porque lhe haviam ensinado na escola do país mais poderoso do mundo sua primeira lição de antivida.

A escola de Johnathan já não era mais tão bonita. Porque os sete anos de Johnathan não tinham mais o sabor da infância.

E a cidade de Johnathan não era mais tão bonita, porque Johnathan se tornou quase um adulto, com sete anos de idade.

Mas o país onde Johnathan morava era o mais poderoso do mundo. Até depois de velho, Johnathan poderia orgulhar-se dele.

Alguns anos depois, num banho de mar, numa praia do Pacífico, o adolescente Johnathan viu que uma banhista se afogava à sua frente. Nadou até ela, arrastou-a como pôde, lutando contra o mar, até o lugar em que a espuma das ondas se infiltrava na areia... Mas lembrou-se do beijo que dera numa garota bonita de sua classe, quando de seu aniversário de sete anos. E deixou de lado, na areia, a mulher que tirara das ondas.

Johnathan não tinha mais apenas sete anos.

Os curiosos chegaram e notaram que a banhista não respirava mais. E perguntaram ao Johnathan por que ele não havia feito respiração boca a boca, para salvar a moça que ele tinha retirado das águas.

Johnathan não respondeu. Talvez para não perder o resto de infância e de pureza que ainda havia em sua vida adulta.

Porque Johnathan não tinha mais apenas sete anos.

Johnathan tinha virado cidadão do mais poderoso país do mundo.


José Augusto Carvalho é Professor Universitário jubilado.
Cidadão brasileiro, reside na cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil.