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quarta-feira, 4 de maio de 2016

14 - ESCAPARATE * Brasil, hoje!



CARTA-APELO DE UM GRUPO DE DEMOCRATAS 

AOS SENADORES BRASILEIROS CONTRA O GOLPE, 

PARA 2016 NÃO REPETIR A TRAGÉDIA DE 1964


Belíssima, sensível, contundente e esclarecedora carta-apelo à razão para que o Senado não repita a vergonhosa atuação dos 367 deputados golpistas, comparsas de Cunha.
Médicos, professores, acadêmicos, pesquisadores em sua maioria da área da saúde, pertencentes ao Coletivo Democrático da Saúde 2016 assinam-na.
Que este Senado mostre um mínimo de compromisso com a ética, com as leis, com a Constituição, com o Estado de Direito e,especialmente, com o Brasil e enterrem este golpe orquestrado por bandidos que não têm qualquer compromisso com o país.
CARTA-APELO DE UM GRUPO DE DEMOCRATAS AOS SENADORES BRASILEIROS CONTRA O GOLPE, PARA 2016 NÃO REPETIR A TRAGÉDIA DE 1964
De várias cidades do Brasil, em 1º. de maio de 2016
Senhoras e senhores Senadores,
Dirigimos esta carta aos ilustres Senadores, fazendo um apelo a seu compromisso democrático, ético e histórico com nosso país, neste grave episódio de afronta à democracia, que mantém toda a população em aflitivo suspense.
Somos um grupo de democratas, profissionais de saúde e de outras áreas, que atuamos há longas décadas na clínica, no ensino, na gestão e na pesquisa acadêmica. Em momentos históricos anteriores, participamos com profunda implicação ética de episódios dramáticos da vida brasileira, tendo muitos de nós passado diretamente pela experiência da ditadura e da redemocratização. Temos filiações partidárias diversas, ou nenhuma filiação, e o que nos une é a defesa da democracia, da justiça social e da independência do país.
Sabemos que cabe agora ao Senado, e especificamente ao senhor, uma responsabilidade decisiva sobre o presente e o futuro do Brasil. Pedimos sua atenção para quatro conjuntos de considerações de natureza ética e política que apresentamos abaixo.
Primeiro – O impeachment não resolverá a crise política; ao contrário, vai agravá-la de maneira irremediável, afetando o presente e o futuro do país.Um eventual governo Temer surgirá sob a desconfiança generalizada da população, que se manifestará através de organizações, ou espontaneamente. As pesquisas de opinião demonstram isto. A profunda e dilacerante divisão que se observa no país tende a tornar-se irrefreável, gerando uma instabilidade política muitas vezes maior que a vivida atualmente. Ao contrário do engodo presente na narrativa da mídia, há uma repulsa e uma descrença com esta resolução traumática proposta para a crise política. Um governo Temer-Cunha-PSDB, ilegítimo e perversamente urdido, mergulhará o país em uma turbulência social incontornável.
Medidas autoritárias, que confrontam o Estado de Direito, já começam a ser tomadas, para impedir manifestações legítimas em defesa da democracia, como no caso da proibição judicial ao direito de reunião dos estudantes de Direito de Minas Gerais. Se a justificativa para o impeachment é a governabilidade, trata-se de uma falsa justificativa.
Segundo – O episódio da votação na Câmara produziu um constrangimento ultrajante em toda a população, mesmo entre aqueles que são contrários ao governo atual.
Produziu também um desvelamento irreversível, em órgãos de imprensa e instituições internacionais, da fragilidade ética e jurídica da tentativa de destituição da presidenta eleita.
O engodo jurídico e ético do impeachment tornou-se público, e difundido internacionalmente como GOLPE, embora este fato esteja sendo ocultado pela mídia brasileira. Um resultado trágico de um eventual impeachment será a condenação definitiva das instituições da democracia no imaginário social brasileiro. A intensa propaganda dos meios de comunicação, liderados pelas Organizações Globo, não será capaz de sustentar a verossimilhança da narrativa de legitimação do impeachment. Não estamos mais em 1964, embora continuem presentes os mesmos atores coletivos, e grupos de interesses políticos e econômicos muito semelhantes. Mas a diferença fundamental de 2016 para 1964 é que as empresas de mídia já não impõem totalitariamente a narrativa de justificação da deposição de um presidente eleito. Já não produzem a verdade única que viceja entre as pessoas. Existe agora uma imensa e frenética rede de produção de informações, que desconstrói em tempo real a mitologia da mídia. É impossível avaliar a espiral de anomia que pode surgir de uma decisão tomada sob o signo do grotesco, do ridículo e do ilegítimo, como se passou com a Câmara Federal no sinistro dia 17 de abril. O Senado, mantido na arquitetura da República pela Constituição de 1988, tem a alta missão de agir como a instância da prudência e do discernimento, e é o que se espera dele neste momento grave.
Terceiro – Não há sustentação jurídica para o impeachment, e decisão de tal gravidade não pode ser tomada apenas com base na conveniência política de cada senador ou partido político. É um conceito arraigado na ética de todos os julgamentos, como este que se passa agora no Senado, desde o início da ideia de justiça na civilização humana, que a dúvida deve beneficiar o acusado. Ora, no mínimo existe uma dúvida razoável – entre os senadores, em todos os brasileiros, na imprensa e organismos internacionais – sobre a efetiva existência de crime de responsabilidade que justifique constitucionalmente o impeachment. Não é necessário insistir nisto. O Senado, ao contrário da Câmara, vem apresentado ao debate nacional uma análise mais atenta dos argumentos da acusação e da defesa, o que revelou com toda a clareza a fragilidade e inconsistência da acusação construída com base na tese orçamentária. Revelou também, confirmando o grotesco da sessão da Câmara, as óbvias motivações partidárias deste processo. Partidos adversários do governo, e derrotados nas eleições de 2014, como DEM, PSDB e PPS, aliados a uma parte do PMDB, buscam assumir o poder por meio de manobra parlamentar, apoiada na mídia e no sistema de justiça (Judiciário e Ministério Público). A aparência de uma farsa sinistra já tomou conta do imaginário social, a despeito do esforço de várias horas diárias dos canais de TV e rádio da Rede Globo de Televisão e de vários órgãos da imprensa. Se há tão flagrante inconsistência jurídica, onde estão as instituições da Justiça, no Estado Democrático de Direito? Estão silentes e omissas. Além desta omissão da instância suprema da Justiça, sabemos que se desenvolvem há dois longos anos as ações espetaculares e violentas de um dispositivo político-penal cuja legitimidade e legalidade vêm sendo contestadas pela maioria dos juristas e por pensadores políticos respeitados. A conclusão é que não apenas o julgamento do impeachment será visto pelo presente e pela História como antijurídico, mas igualmente o dispositivo da justiça (Judiciário e Ministério Público) será compreendido como parte indissociável de todo o processo ilegítimo de destituição de uma presidenta eleita por 54,5 milhões de brasileiros. Esta usurpação do poder constitucional da Presidência é, mais que um golpe contra a democracia, uma tragédia histórica, na qual o ilustre Senador escolherá, por seu livre arbítrio e responsabilidade pessoal, sua forma de participação e seu lado. Trata-se, para cada um dos 81 senadores da República, de um dilema ético, que está sendo acompanhado pelas lentes da História.
Quarto – O Brasil vive uma crise política tão grave como em 1964, e uma crise econômica que é, em grande parte, decorrência de dois anos de turbulência orientada para o ataque à estabilidade do governo. Em 1964, os tanques do exército, acionados por grupos políticos golpistas, impuseram ao país a tragédia de 22 anos de ditadura. O país vive há 28 anos a experiência da democracia. Imperfeita, como costumam ser as democracias. A crise política deve ser solucionada pela democracia, e não pela ruptura institucional, isto é, pelo golpe de Estado. A atual turbulência tem componentes conhecidos: a fragilidade política do governo; a ação dos grupos políticos derrotados na eleição de 2014; o ambiente de ameaça e chantagem produzido e sustentado diariamente pelo oligopólio de meios de comunicação; a partidarização da justiça e do ministério público; a omissão das instituições do estado democrático de direito; a ação direta de desestabilização política financiada pelos grandes grupos econômicos, como a FIESP; a baixa efetividade da ação harmonizadora das instâncias políticas (porque submetidas ao constrangimento cotidiano da criminalização da política e da partidarização da mídia). O Brasil precisa de diversas reformas, e pelo menos três são urgentes e fundamentais: a do sistema político, para torna-lo mais democrático, consolidado e participativo; do sistema de justiça (Judiciário e Ministério Público), para estabelecer mecanismos democráticos efetivos de regulação externa de sua atividade (já que os mecanismos existentes se mostram omissos), evitando o espetáculo grotesco da manipulação política de suas ações, e aperfeiçoando e corrigindo dispositivos construídos pela Constituição de 1988; e uma reforma que permita a democratização da propriedade dos meios de comunicação de massa, hoje um oligopólio familiar. Nenhuma dessas reformas, que são eminentemente da alçada das instituições políticas representativas da vontade da maioria da população, poderá ser realizada fora da democracia.
Terminamos, eminentes Senadores, dirigindo-lhes um apelo dramático. O Senado tem a missão de representar a Federação e defender a institucionalidade da República, sendo visto pela população como uma instância da prudência, temperança, equilíbrio, contrapondo-se, neste momento crucial, à pantomima grotesca da sessão da Câmara Federal, a que o país e o mundo assistiram estarrecidos. É preciso restaurar o equilíbrio e a credibilidade na vida política do país. Clamamos, assim, que os eminentes Senadores e Senadoras se posicionem ao lado da democracia, da população de seu estado e do seu país, e votem CONTRA a admissão pelo Senado do processo de impeachment da Presidenta da República.
Atenciosamente,
Coletivo Democrático da Saúde 2016
Assinam esta carta:
Acácia Cristina Reis Andrade Brito Odontóloga RJ
Adailton da Silva Batista Médico cardiologista RJ
Afonso Celso Teixeira Médico, Professor RJ
Alcyone Maria Castro de Paula Psicóloga RJ
Alexandre Vieira Alves de Castro Médico gineco-obstetra RJ
Aline Ferrão Professora RJ
Ana Paula Guljor Médica psiquiatra RJ
Ana Tereza da Silva Pereira Camargo Médica RJ
André Feijó Barroso Médico sanitarista RJ
Angela Maria Mandes Abreu Enfermeiro, professora RJ
Antonio Carlos Nascimento Pinto Filósofo, compositor RJ
Antonio Vieira Machado Médico gineco-obstetra MG
Arlete Sampaio Médica sanitarista DF
Augusto César de Farias Costa Médico psiquiatra DF
Beatriz de Castro Fialho Economista RJ
Bruno Pinheiro Silva Médico Urologista DF
Candido Evangelista da Fonseca Neto Médico Familia e Clinico RJ
Carla Machado de Castro Psicóloga MG
Carlos Américo Rocha de Azevedo Médico sanitarista RJ
Celina Santos Boga Marques Porto Médica RJ
Claúdia Travassos Médica sanitarista, pesquisadora RJ
Conceição Maria Vaz Robaina Assistente Social RJ
Crescêncio da Silveira Neto Médico hematologista DF
Délcio da Fonseca Sobrinho Médico, professor RJ
Denise Rezende Sanches Enfermeira RJ
Eleny Guimarães Teixeira Médica clínica RJ
Eleonra Lisboa Mascia Arquiteta e urbanista BA
Eliane Assumpção Médica neurologista RJ
Emeirie Lucia Cabral Rossi Assistente Social RJ
Emmanuelle Lira Cariry Médica pediatra PB
Eraldo Bulhões Martins Médico RJ
Erotildes Maria Leal Médica psiquiatra RJ
Everardo José Grossi Médico Patologista RJ
Fabiana Vaz de Melo Historiadora DF
Fábio de Castro Fialho Economista RJ
Franklin Rubisntein Médico psiquiatra RJ
Guilherme Franco Médico sanitarista RJ
Heitor Alarico Gonçalves de Freitas Médico clinico, sanitarista GO
Hermano Albuquerque Médico, pesquisador RJ
Ileno Izídio da Costa Psicólogo, professor DF
Izabel Christina Friche Passos Psicóloga, professora MG
Jair Araujo Junior Médico, professor RJ
Janete Celano Valladão Médica Homeopata RJ
João Batista Vieira Médico Sanitarista RJ
Jorge Bermudez Médico Sanitarista RJ
Jorge Luiz do Amaral médico clinico geral, professor RJ
José Antonio Veronese Mascia Médico cardiologista RJ
José Carlos de Souza Lima Médico RJ
José Gomes Temporão Médico, ex-professor RJ
José Roberto Murisset Médico SP
José Vasques Peres Neto Médico RJ
Joyce Aragão Médica RJ
Joyce Cantoni Médica endocrinologista RJ
Juliana Pimenta Médica psiquiatra RJ
Katia Maria de Azevedo Caldeira Pires Médica Pneumologista RJ
Laerte Vaz de Melo Médico cirurgião RJ
Lenaura Lobato Socióloga, professora RJ
Leonardo Boff Teólogo, escritor e professor RJ
Leonardo Simplicio Lima de Oliveira Assistente Social RJ
Leoncio Feitosa Médico cirurgião cardiaco RJ
Leonora Paes Coelho Grossi Psicóloga RJ
Leticia Dias Marconi da Costa Psicóloga RJ
Ligia Giovanella Médica sanitarista RJ
Lilian de Mello Lauria Médica RJ
Lilian Miranda Psicóloga, pesquisadora RJ
Lisa de Castro Fialho Administradora RJ
Lucia Naegeli Geógrafo, professor RJ
Lucia Souto Médica RJ
Luciana Tolla Advogada RJ
Luiz Maurino Abreu Médico cardiologista RJ
Luiz Roberto Tenório Médico, ex-professor RJ
Luzia Magalhães Cardoso Assistente Social RJ
Márcia Miranda Educadora RJ
Márcia Natal Batista Abreu Psicóloga RJ
Marcia Rosa de Araujo Médica cirurgiã plástica RJ
Márcio Neves Boia Médico RJ
Marco Paulo Valeriano Brito Enfermeiro RJ
Marco Porto Médico, Professor RJ
Marcos Medeiros de Oliveira Assistente Social RJ
Maria Aparecida Bezerra Tecnologista Saúde Pública RJ
Maria Augusta Nascimento Assistente Social RJ
Maria Cristina Ventura Couto Psicóloga, professora RJ
Maria da Luz Barbosa Gomes Enfermeira, professora RJ
Maria Froes Skaba Assistente Social RJ
Maria Helena Machado Socióloga, pesquisadora RJ
Maria Inez Padula Anderson Médica sanitarista RJ
Maria José Procópio Ribeiro de Oliveira Médica pediatra RJ
Maria Juraci de Andrade Dutra Psicóloga RJ
Maria Leite Correia Médica RJ
Maria Lourdes Ferreira de Oliveira Santos Assistente Social RJ
Maria Rita Cassia Macedo Odontóloga RJ
Maria Tereza Gonçalvez de Souza Médica DF
Marilia Fornaciari Grabois Médica oncologista pediátrica RJ
Marli dos Santos Assistente Social RJ
Marta Gama de Magalhães Psicóloga RJ
Mary Jane de O. Teixeira Sanitarista RJ
Melissa Assunção Santos Psicóloga RJ
Melissa Ribeiro Teixeira Terapeuta Ocupacional RJ
Miguel Ajub Hijar Médico infectologista RJ
Mirian de Souza Silva Assistente Social RJ
Monica Jung Médica endocrinologista RJ
Moysés Rechtman Médico RJ
Nayá B. N. A. Puertas Médica de família RJ
Nelson Ferrão Médico RJ
Ormeu Lopes de Faria Filho Médico oftalmologista MG
Paula Cerqueira Psicóloga, professora RJ
Pedro Gabriel Delgado Médico psiquiatra, professor RJ
Pedro Miranda Médico pediatra RJ
Poliana Bruno Augusto Assistente Social RJ
Priscilla Hauer Assistente Social RJ
Raquel de Matos Lourenço Médica oftalmologista DF
Regina Celi Pereira de Carvalho Médica cardiologista RJ
Regina Marconi Franco Assistente Social RJ
Regina Maria Aquino Xavier Médica sanitarista RJ
Regina Moreira Ferreira Médica oncologista pediátrica RJ
Renata Barros Enfermeira sanitarista RJ
Ricardo Ledo Chaves Médico pediatra RJ
Ricardo Rezende Professor, cientista das religões RJ
Rita Louzada Psicóloga RJ
Rivaldo Venâncio da Cunha Médico, pesquisador MS
Roberto Machado Médico RJ
Roberto Parada Médico RJ
Roberto Portes Médico RJ
Rosa Domeni Santos Médica RJ
Rosalie Branco Correa Médica neurologista RJ
Rossano Cabral Lima Médico psiquiatra, professor RJ
Sandra Amorim Savi Psicóloga RJ
Sandra Aparecida Venâncio de Siqueira Médica psiquiatra RJ
Simone Ladeira Andrade Médica tropicalista RJ
Sonia Lacerda Técnica de Enfermagem PB
Sonia Maria Coelho Chaves Médica RJ
Suellen da Silva Carvalho Psicóloga RJ
Suely Pinto Médica pediatra RJ
Tânia Grigolo Psicóloga SC
Tania Araujo Jorge Médica infectologista RJ
Tania Kolker Psicanalista RJ
Tania Motta Médica RJ
Thyeres Olimpio Machado de Souza Médico cirurgião pediátrico MG
Ticyana Ferreira D. Azambuja Ramos Médico anestesista RJ
Valéria Andrade Vaz de Melo Muri Advogada RJ
Victor Grabois Médico RJ
Wilma Costa Souza Fisioterapeuta RJ
Xico Teixeira Jornalista e Radialista RJ

domingo, 1 de fevereiro de 2015

14 - ESCAPARATE * O desaforo




Aos Autores antologiados não será solicitada nem oferecida nenhuma contrapartida para a participação na obra, não serão igualmente ofertados exemplares da mesma.


Todos sabemos que a escrita é anterior à actividade editorial.

Todos sabemos que a actividade editorial decorre da escrita ou, dito de outra maneira, sem autores não há editores.

Assente esta realidade que não oferece contestação, chega-me a surpresa absurda de uma editora convidar autores para colaboração numa amostragem de autores actuais, vulgo antologia, mas desde logo informando que esses mesmos autores não terão direito a receber um volume de oferta ou, mínimo dos mínimos, a um volume a custo reduzido.

Ocorre, assim, esta situação: a editora recebe a colaboração, edita-a, comercializa-a e os autores recebem o prazer de ver os seus trabalhos editados. Edificante!

Que imperativos legais impedem os autores de se associarem e combaterem este desaforo?

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Fevereiro de 2015.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

14 -ESCAPARATE * Pátria Transtagana, em Estremoz

Biblioteca Escolar Almeida Garrett, 11/12/2014

Da nossa esquerda para a direita.
Coronel João Andrade da Silva, José-augusto de Carvalho,
Professora Rosa Barros e Professora Doutora Maria do Céu Pires

* 

Aqui deixo aos prezados leitores deste espaço o texto da minha intervenção:

11 de Dezembro de 2014, em Estremoz!

Entendeu a vontade dos homens que eu buscasse longe o que o nosso pátrio Alentejo me devia.
A vontade dos homens que tinham poder para impor a sua vontade aos outros.
A vontade dos homens que determinavam que a nossa amada Pátria Transtagana recusasse a muitos dos seus filhos o direito natural de viver na sua terra.
Lá fui! Segui de comboio até ao Barreiro; cruzei o rio Tejo; chegava a Lisboa. Deixava para trás o meu mundo e a minha gente.
Difícil é viver em terra estranha!
Lisboa acolheu-me, indiferente. Mais um, menos um, na migração, não aquentava nem arrefentava, no dizer de Mestre Aquilino, ainda que noutro contexto.
Por lá vivi quarenta e dois anos, sempre sonhando regressar. E o sonho ganhou forma e realidade em Junho de 1996.
Ganhei a vida, estudei por conta própria o que mais me interessava, aprendi o pouco que sei. E escrevi versos e mais versos; e publiquei três livros: arestas vivas, 1980; sortilégio, 1986; tempos do verbo, 1990.
De 1961 a 1973, trabalhei graciosamente no jornal República, mais exactamente no Suplemento República das Letras e das Artes, sob a responsabilidade do poeta Alfredo Guisado, amigo de Fernando Pessoa e seu companheiro na aventura do Orfeu, em 1915.
Neste suplemento publiquei, em Outubro de 1969, apanhando a Censura distraída, o meu poema «O maltês». Vivia-se, então, em período de campanha eleitoral. Foi quando votei pela primeira vez. Teria de esperar por Abril de 1975 para votar de novo.
Foi com «O maltês» que terei conquistado alguns benevolentes leitores.
Aqui fica o poema:

Já fui maltês e ladrão
de quanto me foi roubado.
Meu covil foi o montado;
meu camarada, o suão.

Fui livre à minha maneira,
como um homem deve ser;
a lei dei a conhecer
da mira da caçadeira.

Por roubar o que era meu,
nas malhas bem apertadas
das baionetas caladas
caí num dia danado,
mas contas ninguém me deu
de quanto me foi roubado.


Em  25 de Abril de 1974, acreditei na Primavera!
E acreditei nos homens que traziam a esperança!
Ah, mas Abril, logo no seu primeiro dia de Primavera, sangrou às mãos dos esbirros da negação!
Aquele dia inesquecível chorou a morte matada de alguns que tão pouco viveram para glorificar a aurora!
Em Lisboa, vivi a alegria de ver gente da nossa gente transtagana na luta honrada e nobilíssima de despertar um povo da longa noite da negação da Vida.
Meus amigos, gente da nossa gente, a mesma que tombou em Atoleiros, que tombou em Aljubarrota.
Gente da nossa gente, a mesma que tombou em Évora, em 1638, anunciando a futura Restauração, em 1640!
Gente da nossa gente que tanto contribuiu para que o despotismo ajoelhasse sem condições na nossa Evoramonte, em 1834!
Desta nossa gente me reclamo!
Esta gente que é nossa e que glorifico por ter sempre cumprido o seu dever nos campos, nas minas, nos mares, nas demais actividades que a divisão social do trabalho exige, na luta armada, na dádiva suprema do sangue derramado por si e pelos outros.
Por tudo isto, o meu dever de amar e de cantar, como posso e sei, a Pátria Transtagana.
E neste meu amar e neste meu cantar glorifico igualmente todos os compatriotas da Pátria Portuguesa que tudo deram de si para que todas as regiões, que não apenas a transtagana, sejam parte da Humanidade em movimento rumo à dignificação humana.
É nas horas difíceis que o Homem se transcende. Assim foi no passado que recordamos com emoção; assim será neste presente que vivemos.
Vivi o último momento de emoção até às lágrimas em 1974, quando a Revolução dos Cravos devolveu a todos nós uma Pátria Livre. Como escrevi recentemente…

Nostalgia

Mais um Inverno frio nos deixava…
Mais uma Primavera prometia…
E sempre uma esperança pontilhava
de estrelas este céu que se fechava
ao rútilo esplendor dum claro dia!

E sempre esta esperança que morria
em cada frustração que nos matava!
E sempre o desespero arremetia
na força renovada que nos dava
a Fénix que das cinzas renascia!

Ai, tanto se morria e renascia!
E sempre esta esperança acalentava.
Que fértil terra de húmus e porfia
a força dava à força que faltava
nas horas em que a vida mais doía?

De sangue e desespero se amassava
o pão que noite adentro se comia!
De sol a sol, o corpo tudo dava
a troco duma jorna que minguava
enquanto o desespero mais crescia.

Ah, mas, na sombra, a noite murmurava
enleios, numa terna melodia!
E antes de adormecer, já madrugava
nos versos da canção que prometia
livre e fraterna a terra que chegava!

Chegava a Liberdade que cantava
lusíada, em feliz polifonia,
o fim do pesadelo que matava
no dia todo em luz que despertava
a vida que chorava de alegria!

O pátrio povo em armas devolvia
o berço que das trevas libertava
ao povo que sem armas acudia.
E um povo todo irmão se estremecia
no imenso e terno abraço que se dava.

Navegar é preciso, prometia,
agora que o viver se precisava!
Nos braços embalada, a pátria ouvia!
E quanto mais ouvia mais se dava
ao sonho que se ousava e florescia.


José-Augusto de Carvalho


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

14 - ESCAPARATE * Pátria Transtagana






No dia 11 de dezembro recebemos, na Biblioteca Escolar, o poeta José-Augusto de Carvalho para apresentação do seu livro "Pátria Transtagana".

Este evento integrou-se na Feira do Livro e na comemoração da Semana dos Direitos Humanos e contou com a presença do autor do prefácio, Coronel Andrade da Silva, e da autora do posfácio, Professora Maria do Céu Pires, docente na nossa escola.


Pelos laços de admiração e estima que a ligam ao poeta, esteve connosco a Profª Bibliotecária Rosa Barros, do Agrupamento de Escolas de Viana do Alentejo.


A todos agradecemos a presença e o privilégio de nos terem proporcionado momentos de grande significado. A José-Augusto Carvalho deixamos os nossos sinceros parabéns pela sua obra.


Bem hajam!

Cláudia Marçal, Professora Bibliotecária

domingo, 12 de outubro de 2014

14 - ESCAPARATE * «Pátria Transtagana»



Ontem, 11 de Outubro de 2014, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Aguiar, município de Viana do Alentejo, ocorreu o lançamento do livro «Pátria Transtagana», do qual sou autor, com prefácio do Coronel João Andrade da Silva e posfácio da Professora Maria do Céu Pires, Doutora em Filosofia pela Universidade de Évora.


Na mesa, da nossa esquerda para a direita: Rosa Barros, minha amiga e Professora de Filosofia do Ensino Secundário; Professora Doutora Maria do Céu Pires; Presidente da Junta de Freguesia de Aguiar; Coronel Andrade da Silva; e eu, José-Augusto de Carvalho.

Seguidamente, divulgo o texto da minha intervenção:


Boa tarde, Vila de Aguiar!

Boa tarde a todas as pessoas que puderam e quiseram vir assistir ao lançamento do livro «Pátria Transtagana»!

1.

Talvez eu esteja violando normas ao ser o primeiro a usar da palavra.

Evidentemente que muitas normas terão, como todos os ovos, o destino último de ser quebrados. Será este o caso? Quisera que sim.

Não é por inconsideração que me imponho na abertura desta sessão de lançamento do livro «Pátria Transtagana», mas sim porque é indispensável situar-me e situar este encontro.

Aguiar não é apenas uma das muitas localidades da Pátria Transtagana. É uma povoação que conheço desde menino. Aqui vinha com meu pai, num carro de varais, puxado por um possante muar. Mas esta razão que aduzo não poderia ser determinante para a minha preferência.

Determinante foi o convite que recebi, há meses, do Executivo da Junta de Freguesia de Aguiar para vir ler, neste mesmo salão, alguns textos dos muitos que ando escrevendo desde quase o amanhecer da minha existência de escriba impenitente, já lá vão quase setenta anos.

Portanto, Aguiar soube de mim como autor e honrou-me com um convite. Convite que aceitei agradecido.

Ora porque «Pátria Transtagana» reclamava o seu lançamento no Alentejo, como poderia eu, agora, ignorá-la ou preteri-la?

Como poderia eu não vir felicitá-la nesta data e associar à sua festa o lançamento deste meu livro?

Festa em que a vila de Aguiar comemora mais um aniversário da sua condição de Freguesia de Abril.

Eu sei que, por solicitações familiares e afectivas, outras povoações do nosso pátrio Alentejo poderiam reclamar-me o lançamento deste livro: Viana, onde eu nasci e onde nasceram muitos dos meus antepassados de apelido Carvalho; Serpa, onde nasceu minha mãe; Alcácer do Sal, onde nasceu minha avó materna Rosa de Jesus; Alvito, onde nasceram meus bisavós José António e Catarina das Dores; de novo Alvito, onde nasceu também minha bisavó Margarida.

Com excepção de meu avô materno, que desceu da transmontana Chaves buscando a sua moira encantada de sempre, a minha avó Rosa, toda a minha memória é transtagana.

2.

Quanto a mim, que poderei eu dizer?

Não tenho títulos nem cargos públicos ou privados e nem honrarias a recomendar-me.

A recomendar-me tenho apenas a minha condição de alentejano.

Também terei a recomendar-me um trajecto cívico de amor e respeito, de exaltação e defesa da Pátria Transtagana e das suas gentes, das minhas gentes.

Como vêem, nada de relevante há a dizer de mim, porque amar a nossa terra e a nossa gente é um apelo do mais recôndito de nós e não um dever ou uma qualidade racionalmente considerada.

3.

E no nosso caso de alentejanos, mais se imporá a nossa terra e a nossa gente, porque desde os recuados tempos do alvor da nacionalidade portuguesa que é a nossa, a Terra Transtagana e as suas gentes foram maltratadas, menorizadas, desprezadas, mortas ou expulsas.

Aquando da Reconquista, apeado o poder muçulmano, ninguém aqui mereceu a confiança dos reconquistadores. Ninguém!

Nada tenho contra outras gentes que queiram viver connosco nesta nossa terra e decidam ou não integrar-se no todo das nossas gentes; mas tenho tudo quando nos recusam o legítimo direito de mandarmos na nossa casa.

Urge a regionalização, única possibilidade de legitimamente, e sempre no quadro constitucional da Pátria Portuguesa, aspirarmos ao direito de escolher a nossa vida e o nosso destino.

Verdade é também que as gentes transtaganas não estão isentas de responsabilidade:

-- no passado, quando, algumas vezes tiveram voz e poder para tentarem impor-se, cederam a valores e interesses que lesaram os seus;

-- e no presente, quando, tendo voz e poder relativo para se impor, escolheram a resignação ou mal escolheram quem os represente na superior condução do seu destino colectivo.

Longe estive do nosso Alentejo; agora no nosso Alentejo estou, definitivamente, assim espero. Nunca procurei os favores dos poderes públicos e privados. Nunca os procurei e nunca os tive. E nunca os terei. E não é por teimosia, mas por opção.

E quanto a direitos, apenas tenho os direitos que a Lei Constitucional me confere.

4.

Sabem muito bem os mais velhos, como eu, o que foi viver, malviver, digo eu, sob o Estado Novo de Salazar e Marcelo Caetano.

Sabem os mais velhos, como eu, o que foi descobrir a Liberdade quando o Movimento dos Capitães nos devolveu a dignidade e a esperança numa Madrugada de Abril aureolada de cravos e de aromas de fraternidade e de paz.

Sabem os mais velhos, como eu, as dificuldades que logo surgiram, criadas pela resistência tenaz dos poderosos a quem não servia nem serve um povo adulto e livre.

Sabemos que esta terra e suas gentes lutaram desde a consolidação da independência de Portugal.

Estivemos sempre do lado certo da História e pagámos sempre o preço que nos foi exigido em bens, em sacrifícios, em sangue derramado.

No presente, resiste connosco a memória viva da Revolução dos Cravos e a vontade de transformarmos em realidade a sua promessa de finalmente haver e perdurar Abril em Portugal.

Aqui está, entre nós, um Capitão de Abril, um dos homens do Movimento das Forças Armadas que devolveu a todos nós a dignidade de mulheres e homens livres.

Um Capitão de Abril que conheceu palmo a palmo as terras transtaganas e as suas gentes.

Um capitão de Abril que nos ama e tudo arriscou por nós.

Um Capitão de Abril que está, também, nas páginas do livro que lançamos hoje.

Devemos-lhe tamanha distinção.

Bem-haja, Coronel Andrade da Silva!

E este bem-haja é extensivo aos seus camaradas de armas que nos ajudaram a entrever a esperança.

Com um segundo bem-haja relevo a Professora Maria do Céu Pires, Doutora em Filosofia, e gente da nossa gente, por ter aceitado ligar o seu nome e o seu amor ao Alentejo a este livro em lançamento.

E o meu terceiro bem-haja releva a querida Amiga Rosa Barros, professora de Filosofia do Ensino Secundário, uma filha dilecta dos Açores e já também alentejana do coração. Querida Amiga que empenhadamente me tem acompanhado neste meu percurso acidentado desde o meu regresso definitivo ao Alentejo.

5.

Na hora da gratidão, saúdo o Executivo da Junta de Freguesia de Aguiar pelo acolhimento e ao qual reitero a minha disponibilidade para colaborar em sessões culturais e cívicas, sempre que considerar oportuno e desde que para tanto eu esteja em condições de corresponder.

Nesta mesma hora da gratidão, saúdo também a gente da minha gente que está aqui e os familiares e Amigos naturais de outras regiões da Pátria Portuguesa que quiseram e puderam associar-se a este lançamento.

Finalmente, uma palavra de profundo pesar e de imperecível saudade para aqueles que partiram desta vida e exclusivamente por esse motivo não estão aqui também amparando o objectivo único deste livro: dignificar o Alentejo e por ele toda a Pátria Portuguesa.

Até sempre!

terça-feira, 30 de setembro de 2014

quinta-feira, 21 de julho de 2011

14 - ESCAPARATE * Compreender, eis a questão!


2005: PAZ NA INTERNET

Compreender, eis a questão!
Lizete Abrahão

    Não importam os meios, os recursos ou os fins; nem mesmo o objetivo mais importante tem algum valor quando o ser humano, nas suas buscas, seja pelo que for e como for, perde o controle sobre seus atos ou palavras.
Já vi e li, aqui na Internet (e em muitos outros lugares, por óbvio), pessoas falando e escrevendo sobre bondade, amizade, paz, amor e outros sentimentos puros, não raro, invocando o nome de deus e outras entidades místicas e, logo adiante, dizendo e escrevendo coisas chulas, numa verborragia virulenta, contagiando uns e outros que, por desaviso, pusilanimidade ou maldade, tomam o mesmo caminho, disseminando, em sua trajetória, a discórdia e o mal-estar. E o mal de todos os males é o fazerem, em nome de uma pretensa defesa de direitos de bens usurpados, tanto materiais quanto intelectuais, quando na verdade, no meu humilde entender, há apenas o aviltamento de valores maiores, a banalização de atos que deixam de ser nobres quando são cometidos.
O grande mal que grassa entre os humanos, na Internet e fora dela, gerando violência, geralmente gratuita, é a incompreensão. Porque será que é tão difícil compreender o outro? Sei que as intenções é que fazem a diferença, e dizem: "Respeitem as diferenças". Mas como é que alguém vai respeitar o que nem se deu ao trabalho de procurar saber? Quem vai respeitar ou mesmo aceitar aquilo que não conhece? E, então, eu pergunto: "Há, por acaso, interesse em as pessoas se conhecerem de fato?". Receio que eu não gostaria da resposta que até se prenuncia...
Se tantos dizem que buscam a Internet, para aprender, adquirir conhecimento, relacionar-se com outras pessoas, etc., por que há essa visão tão curta, entretanto, levando a discussões inócuas tão longas? Sinceramente, custa-me entender certos comportamentos. Aliás, está aí uma coisa que terei de aprender a compreender; nunca a aceitar, porque não aceito violência de espécie alguma.
Hoje em dia, jogam palavras, como punhais; ferem-se uns aos outros. Quando vejo, então, pretensos poetas, usando a palavra, em brigas quase insanas pelo que eles chamam "direitos autorais", chego à conclusão de que a poesia ainda está muito longe daquilo que ela verdadeiramente vale. De que adianta dizer-se poeta se a vaidade permite apenas que se alimentem os egos, que sirva de pasto para egoísmos, ciúme doentio, desavenças, desolando de tal forma o interior humano que nada mais resta, além de fugas alienantes. Onde a sensibilidade? A afetividade? O descobrimento de si e do outro? A conscientização?
Poeta resgata valores, através da poesia, e não a usa para jactar-se. Poeta leva, por ela, os mais nobres sentimentos e não a degradação das relações entre as pessoas. Ser poeta não é tarefa fácil, não é apenas sair fazendo versos; não é importar-se com o peso de outras personalidades e fazer comparações....É ser responsável por si e pelo mundo inteiro; é anunciar-se, a esse mesmo mundo, como mensageiro do BELO, através da linguagem afetiva, por mais feio que esse mundo possa parecer aos outros; é ter o direito de sofrer mais pela ausência de valores humanos do que por não o terem compreendido como poeta. Ser poeta é não fazer uso da palavra para destilar fel, purgar ódio e sentimentos nefastos a ela e aos outros que são "respingados" pelo seu amargor. Poeta destila, sim, mas não seu próprio fel, e, sim o do mundo, ele é o filtro do feio e do ruim e, guiado pelo sentido do BELO, asperge e estabelece, nesse mesmo mundo, a POESIA. Poeta é instrumento e não fim da poesia.
Compreender, sobretudo, que somos diferentes uns dos outros e, antes de tudo, compreender essas diferenças para, se não puder aceitá-las, pelo menos, respeitá-las. Para isso, basta ter a consciência de que há diferenças; saber que elas existem já é um grande avanço, um sinal de inteligência aguçada, mas não querer descobri-las, permanecer no próprio e obscuro "eu" , preferindo rechaçar e agredir o outro, é atitude de quem não tem capacidade nem mesmo de se descobrir...
Dizem-nos seres racionais, mas, anterior à racionalidade, somos seres lingüísticos. É esse fato que, estruturalmente, nos difere dos demais seres vivos, entretanto, o que nos classifica como humanos é a capacidade de sentir e transmitir emoções. Pois o bom ou mau uso de nossa competência lingüística e da falta ou degeneração das emoções dependem, somente então, do uso da razão, o verdadeiro comandante das ações conscientes.
Não há porque deixar de ter e expressar sentimentos fortes, de transbordar emoções, mas há que se fazer uso do consciente, para controlar exageros. Toda exacerbação, para mais ou para menos, coloca o ser humano em xeque. Creio, mesmo, que é a falta de visão poética da vida que conduz à essa petrificação de sentimentos.
Se a poesia não fosse tão aviltada e se os ditos Poetas, usando adequadamente sua competência lingüística, a parissem, não para diminuírem as diferenças, mas para fazerem os homem pensar, aproximar-se, provocando neles belas emoções, estou certa de que haveria bem menos violência, neste nosso mundinho.

Hoje, eu bem poderia ter escrito um poema...

Sê feliz!

Lizete Abrahão

domingo, 14 de março de 2010

14 - ESCAPARATE * Conceição Paulino * «O meu cancioneiro»

Viana do Alentejo, 19 de Setembro de 2009
Texto de apresentação de “O meu cancioneiro”, 
de José-Augusto de Carvalho

Ao lermos um livro, há sempre muito do autor – da pessoa que é – que para nós passa. Que captamos – assim o julgamos. Que me desculpe José-Augusto de Carvalho a ousadia, mas sobre ele quero dizer algumas palavras.
José-Augusto de Carvalho é, em minha opinião, um homem fora do tempo. De outra geração embora, como meu pai, é um homem de valores, convicções e…palavra. Daí o desfasamento com o tempo que vivemos encontrado na sua escrita porque por si vivenciado. A palavra dada vale tudo. O aperto de mão substitui notários. Os valores que o sustentam são tão válidos no tocante à sua pessoa e vida como à de qualquer outra pessoa. José-Augusto de Carvalho sabe, com um saber da alma, que somos o resultado de tudo e de todos que nos antecederam – daí a importância dada à nossa história e a estas antigas e belas expressões poéticas com que elaborou este Cancioneiro. Sabe, acima de tudo, o sentido e o valor da “alteridade”. Sabe que ele é o outro, da mesma forma que o outro é, ou pode ser, a qualquer momento, ele/cada um de nós. Por isso, os seus sonhos e projectos são-no no colectivo. Nunca por ambição pessoal. Para si não quer nada que não queira para todos nós.
Passemos ao Cancioneiro que hoje se apresenta:
Fernando Pessoa afirmou que a poesia é uma forma de prosa em que se cria um ritmo artificial, através de: 1) pausas especiais – diferentes das que a pontuação define - embora, por vezes, possam coincidir; 2) escrita do texto em linhas separadas, denominadas versos. Desta forma, o autor/poeta cria 2 tipos de sugestões características à escrita poética: Sugestão rítmica/métrica, de cada verso por si; Sugestão tónica incidindo na última – ou única palavra do verso (se for o caso).
Uma questão se levanta: porque sente o poeta a necessidade de criar um ritmo artificial? É bem simples a resposta – porque a emoção intensa não cabe numa simples palavra, daí a necessidade de criar uma musicalidade rítmica exterior à palavra – só por si – mas que desta forma é contida no verso, no poema, como se num cálice. Ou, dito de outra forma: a poesia é uma forma de música feita com ideias em vez de só com emoções. As emoções transmutam-se em ideias que se expressam – melodicamente/ritmicamente/musicalmente – através das palavras. Toda a ideia perfeitamente concebida é rítmica, por si e em si, e é isso que José-Augusto de Carvalho, mais uma vez, nos oferece com este Cancioneiro. O ritmo, a rima, a estrofe são instrumentos disciplinadores da emoção de forma a exprimi-la não na forma tumultuada que é própria das emoções, mas num grau superior de controlo imposto pela disciplina destes 3 elementos: ritmo, rima, estrofe! Em síntese, afirmo que um poema é a projecção de uma ideia por palavras, mediadas pela emoção.
Com este Cancioneiro, explorando a poesia trovadoresca nas suas 4 vertentes: Cantigas de amor, Cantigas de amigo, Cantigas de escárnio e mal dizer e rimances, o autor presta homenagem aos trovadores medievais e lembra-nos: a existência dos testemunhos poéticos por eles deixados, por aí abandonados e cobertos de pó por falta de leitura; a necessidade de a eles voltarmos; a necessidade de os ler e reler, para melhor nos compreendermos enquanto povo, enquanto nação com um quadro cultural e histórico próprio que aí encontra clara e ilustrativa síntese evolutiva.
[Deixem-me fazer um breve aparte a respeito do “cantar de amigo” que constitui uma variedade poética da produção lírica portuguesa originária da Idade Média.
Esta composição enquadra-se na original poesia trovadoresca Provençal, do sul de França, mas é uma construção poética peninsular que detém a particularidade de conferir o estatuto de enunciação à mulher, embora fossem sujeitos masculinos a compô-la. O cantar de amigo são cantigas de origem popular, com marcas evidentes da literatura oral utilizando recursos próprios dos textos para serem cantados - ainda hoje utilizados nas canções populares - e que propiciam facilidade na memorização.]
Neste Cancioneiro, José-Augusto de Carvalho pega, com mestria, nas quadras em redondilha, maior e menor, nas estrofes e nas sextilhas, usa sabiamente o ritmo e a métrica para, numa linguagem actual, entrosar passado, presente e futuro deste povo que somos. Os grandes momentos definidores da nossa identidade --- porque é disso que se trata nesta obra aqui ofertada a todos – de reconhecer, aceitar, acarinhar e manter a nossa identidade que de Castela nos separou --- são abordados: desde as batalhas, Álcacer-Quibir, Salado, Aljubarrota, às cruzadas – fora e dentro do espaço que hoje constitui o Portugal luso; “A dívida”, pg 38, em que enuncia as batalhas Aquém Tejo e Além do Tejo – dado que a Portugalidade se estende por muitos continentes aos nossos mitos e lendas; ao Bandarra e sua adivinhação; aos milagres estruturantes do simbólico na nossa cultura.
Dedica o poema “Quase uma oração", pg 40, a um tema tão português como “SAUDADE”. Desmonta o conceito em várias das suas vertentes, ou dimensões. “Saudade palavra linda…”, mas linda, porquê? Porque alimenta a esperança do retorno e do reencontro. Mas o mesmo sentimento, saudade, cria ansiedade, desesperança, angústia: “ …E a desventura detenha / p’ra que no peito eu mantenha / a bater, meu coração." (…)” Na última estrofe deste poema pede alento a Deus pois a dor é tão grande que se torna destruidora. O autor implora que este sentimento se transforme. Mostra-nos a saudade como algo potencialmente transformador: “ Ai, que esta dor que alimento / seja, na massa o fermento / do pão da vossa clemência.”
Nas Cantigas de Escárnio e Mal Dizer, em “Coisas do reino”, pg 45, se trocarmos: “…corredores do Paço” por corredores do poder, vemos e lemos um retrato actual do país. No seu olhar sobre o Natal (2 poemas nas pg 48 e 50), não deixa passar o modo tão português de dizer lamentando: “vamos indo, menos mal…”, nem deixa passar a hipocrisia que na época é recoberta pelo desejo /”momento anual/de nos sonharmos natal”. “É a visita anual/ a cumprir a tradição(…)/De Jesus nem um sinal(…)/o sonho, de rastros,/espezinhado mal brilha.”
E diz, pg 48, "que nos valha a gulodice(…) / Festejai, que é de bom tom! / Vinte e quatro horas de amor! / Abaixo o mau! Viva o bom!" Depois, novamente a dor, "A preto e branco e sem som”.
No poema À sombra do campanário, pg 51, o poeta faz a ronda pelas festas – Natal, Quaresma, Carnaval – mostrando-nos com o seu olhar acutilante e crítico como “…nesta monotonia, / à sombra do campanário, / se vive e pouco porfia, / ao sabor do calendário.” Como se as nossas vidas fossem um baile mandado à voz do mandador que estipula os nossos momentos e estados de espírito.
Em Engano Triste, pg 20, o poeta, do corpo faz o “convento” ou, figurativamente, o convento é o corpo; no poema “Enquanto a vida for vida!, pg 22, aborda um tema actual sobre o direito à vida, questionando-se, e a nós, sobre o que devemos ou não, considerar VIDA. A questão do direito a viver com dignidade, questão que tão escamoteada é na nossa sociedade.
Neste belo cancioneiro, do intimismo da alma, num registo mais pessoal, ressoa forte um grito humano e social a que não podemos ficar indiferentes se queremos que A VIDA SEJA VIDA e não seja um qualquer ZAGAL a comandar-nos.
Obrigada a todos por aqui estardes.
José-Augusto, obrigada por me convidares a falar sobre este belo e profundo Cancioneiro.


***
Conceição Paulino nasceu em Beja em 1945, na Freguesia de S. João Baptista. Reside em S. Mamede de Infesta há 36 anos.
Teve envolvimento político no distrito do Porto e no concelho de Matosinhos onde reside e deteve cargos autárquicos.
No plano cívico, fez parte dos corpos de algumas associações culturais e educativas.
Por ora atém-se ao envolvimento cívico. Licenciada. Exerceu durante os últimos sete (7) anos funções docentes no ensino superior.
NO PLANO LITERÁRIO:
Colaborou, durante 7 anos, com crónicas quinzenais no Jornal regional Matosinhos Hoje; fez recensão no extinto Jornal de Letras (Porto);
foi colaboradora ,com recensão e poesiam nas revistas Património XXI e Sol XXI e fez parte da direcção do núcleo do Porto da Associação Sol XXI.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

14 - ESCAPARATE * «Do mar e de nós»

No lançamento do livro «Do Mar e de Nós»
Lisboa, Casa do Alentejo, 27 de Junho de 2009.


Se lançar este meu livro nesta muito amada cidade de Lisboa já é um privilégio, duplo privilégio é estar sob estes tectos da Casa do Alentejo, marco incontornável da presença alentejana na capital do país.
Bem-hajas, Lisboa, minha amada cidade de acolhimento!
Bem-hajas, Casa do Alentejo, presença física do meu Alentejo pátrio!
Estas são as minhas primeiras palavras, naturalmente de sentida gratidão.Também estas outras de agradecimento são para os poetas e editores Xavier Zarco e Paulo Afonso Ramos, por terem acreditado na edição de «Do Mar e de Nós». Bem-hajam, Companheiros!
Neste livro, editado sob a chancela de Temas Originais, e, agora, apresentado pelo poeta Xavier Zarco, há a nostalgia do mar e dos nossos antepassados, que, intrepidamente, quiseram, puderam e souberam projectar a Pátria para muito além dos limites estreitos, geograficamente definidos nesta faixa ocidental da Ibéria.
Desses homens grandes, nossos antepassados, disse Camões, lapidarmente, que da inexorável Lei da Morte se libertaram. E muito justamente, porque foram eles que ergueram uma Pátria que ganhou o respeito e a admiração do Mundo. E, como poucos, cumpriram-se como homens. Raramente os mereceram os governantes da época. E, menos ainda, os cortesãos, que, nos corredores do Paço, alimentando-se de sinecuras e de ócio, sempre se entretiveram com intrigas e invejas, anunciando a «apagada e vil tristeza» de que Camões também amarguradamente nos fala.
A esses governantes e validos remonta a mediocridade cinzenta e mesquinha que haveria de perdurar por séculos, para desgraça da Pátria e desgosto de quem tudo deu por ela.
As viúvas e os órfãos, com as suas lágrimas, mais salgaram ainda o salgado mar.
Os avisados Velhos do Restelo não foram ouvidos, mas nem os excessos nem os erros poderão empequenecer a glória de que muito nos orgulhamos.
Não há saudosismo em quanto digo, apenas, sim, há o desgosto de não mais termos conseguido fazer por merecer tamanha grandeza. E aqui me socorro de Fernando Pessoa que, na sua «Mensagem», apela a que busquemos, hoje, de novo, a distância. E cito de cor: «Do mar ou outra, mas que seja nossa!»
E se a conquista de uma outra distância, hoje, poderá ser um objectivo de realização deveras problemática, um outro, de mais exíguas proporções será o de contribuirmos para a possível preservação da presença pátria nos quatro cantos mundo, obtida que seja a devida autorização das autoridades governamentais dos países onde ainda nos perpetuamos.
Admito que sejam escassos os nossos recursos financeiros, mas não o serão os recursos humanos. Há muitos portugueses aposentados que de bom grado rumariam a essas paragens e se ocupariam, quase sem custos acrescidos, do muito que há a fazer. Assim as autoridades pátrias o reclamem.
Como aposentado, digo: presente! E sei que não estou sozinho!
Finalizando: Não sei como será recebido este livro. Até poderá ser entendido como um malamanhado ramalhete de versos. Que seja! Não busco louros nem nunca enverguei a jactância de me considerar um talento das Letras pátrias.
Com este livro apenas cumpro um dever de gratidão. E esta minha atitude terá de ser respeitada. É pouco o que dou? Talvez seja pouco, muito pouco, mas dei o que pude. E se mais não dei foi porque não pude mais. Ou dizendo de outra maneira, e parafraseando Camões: Se mais pudera, mais dera!
José-Augusto de Carvalho



Migrando para este novo espaço.

14 - ESCAPARATE * «O meu cancioneiro»


No lançamento do livro
«O meu cancioneiro»

Cine-Teatro de Viana
19 de Setembro de 2009.
Foto de Joaquim Filipe Bacalas



Boa noite!
É um privilégio estar neste Cine-Teatro, que vi erguer na já distante década de quarenta do século XX.
Aqui me traz a solidária manifestação de apoio do Município à edição do livro «O meu cancioneiro».
A este gesto de solidariedade se associaram a Escola E.B. 2,3/S. Dr. Isidoro de Sousa, a CulArtes, a Oficina da Criança e todos os presentes para assinalarem o lançamento de um modesto livro de poemas que a «Temas Originais» editou e o Professor António João Valério e a Poetisa Conceição Paulino se predispuseram muito amavelmente a apresentar.
Às entidades aqui representadas, aos editores, aos apresentadores do livro e a todos os presentes aqui publicamente manifesto a minha gratidão.
Quanto ao livro, ele aqui está, disponível. Dos seus méritos e deméritos, o Juízo do Tempo decidirá, sempre com verdade, como convém. E a determinação de escrevê-lo estará justificada na pequena introdução que também redigi.
Como reiteradamente tenho afirmado, nada de relevante há a dizer de mim. Desempenhei, o melhor que pude e soube, a minha profissão.
Paralelamente, sempre escrevendo alguns versos, numa persistência que prossegue, agora, na situação de aposentado. Ontem como hoje, persigo a Poesia. Sei que é um esforço titânico, pois ela, a Poesia, se me apresenta como o horizonte — sempre à minha frente, mas nunca ao meu alcance. Que fique o esforço, já que o objectivo é demasiado!
Sem exibicionismo, apenas animado pelo espírito de uma cidadania interventora, escrevi dois textos expressamente para este momento, nas músicas tão conhecidas de “O sole mio” e “Torna a Surriento”, duas canções napolitanas mundialmente apreciadas.
Estes textos relevam a visão da sociedade que percebi na adolescência, que amadureci na idade adulta, que me acalenta na fase derradeira da vida, sempre com a mesma esperança de que, um dia, o ser humano saberá ser digno de si mesmo, num abraço fraternal do tamanho do mundo.
Até sempre!
Bem-hajam!

José-Augusto de Carvalho
Viana, 19/9/2009
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sábado, 28 de novembro de 2009

14 - ESCAPARATE * Agradecimento

Com natural satisfação, publicamente agradeço ao Senhor Jorge Castelo Branco a edição do livro «Da humana condição».

A edium editores tem o prazer de anunciar o lançamento previsto para Março da obra poética intitulada “Da Humana Condição” do poeta alentejano José-Augusto de Carvalho. O autor, com seis obras já publicadas, apresenta-nos este título revertido e inspirado da obra de André Malraux “A Condição Humana”; José-Augusto de Carvalho recupera os paradigmas da evolução humana, e discorre sobre a moralidade, a política, o conflito, num registo quase sempre na 1.ª pessoa, um incarnado resistente, desagrilhoadas as correntes que se soltam em palavras que se ordenam em destinos.
Xavier Zarco, na nota breve de abertura, sublinha a propósito: “José-Augusto de Carvalho apresenta-nos, em todo o seu esplendor, a humana condição, que quantas vezes fazemos de conta não ver, mas que existe e invade, enquanto jantamos e lançamos comentários que, amanhã, poucos deles restarão na nossa memória, porque a vida é feita no desespero de cumprir a hora, exagerando, ou talvez não, de cumprir o segundo.Este tomo não deve, não pode passar indiferente. É Poesia no seu esplendor porque habita ao nosso lado e não devemos, não podemos manter o olhar cerrado. Isto, claro, se desejarmos, de facto, um mundo melhor. Se não for para nós, que seja para aqueles que nós gerámos”.
Migrando para este novo espaço.

14 - ESCAPARATE * «Da humana condição»


O lançamento deste livro ocorreu em 29 de Março de 2008: 
Alvito, na Biblioteca Municipal, de tarde; 
Viana, no Salão Nobre da Junta de Freguesia, à noite.

14 - ESCAPARATE * «Do mar e de nós»


O lançamento deste livro ocorreu na tarde do dia 27 de Junho de 2009, em Lisboa, na Casa do Alentejo.

14- ESCAPARATE * «O meu cancioneiro»



O lançamento deste livro ocorreu na noite de 19 de Setembro de 2009, no Cine-Teatro de Viana do Alentejo.