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domingo, 9 de janeiro de 2011

13 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * Vocês vieram depois...


Vocês vieram depois
das trevas da noite densa
e encaram com displicência
os medos da nossa insónia...

Vocês vieram depois
dos tempos das grandes fomes,
quando nos negaram ter
nosso tempo de meninos...

Vocês vieram depois
do tempo da delação,
das masmorras e torturas
de todos os tarrafais...

Vocês vieram depois
do tempo náusea e vergonha
em que tínhamos vergonha
do medo que sufocava...

Vocês vieram depois
e nem sequer lhes ocorre
que nós arriscámos tudo
para erguer este depois...

Vocês vieram depois
e não nos devem nada...


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 3 de Setembro de 1996.

domingo, 29 de novembro de 2009

13 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * Vem ver o meu país de marinheiros!...

Nasci e vivi a meninice e a adolescência em Viana do Alentejo, uma vila de três mil habitantes, sede de município, ao qual pertencem as vilas de Alcáçovas e Aguiar. Como dizia uma canção muito em voga nesse tempo, situando as populações das povoações rurais de Portugal, aqui todos são primos e primas. Pois é, naquele tempo, o mundo era pequeno!
O Poder Político da época afirmava: Portugal é um País Rural !
Quem conhecesse minimamente a geografia física do país sabia que o Poder Político mentia. O país arrastava-se numa agricultura de subsistência, resignado. Recordo-me de que uns anos depois do final da II Grande Guerra, cerca de 1950, um quilograma de trigo colhido em Portugal era vendido ao público por três escudos e sessenta centavos e que se dizia que o Canadá colocaria trigo em Portugal por quarenta centavos cada quilograma.
Para situar os preços que indico, esclareço que um dólar equivalia a mais ou menos vinte e cinco escudos.
É fácil concluir que não havia interesse do Poder Político em libertar o País da miséria, do analfabetismo, da palavra de ordem do fascismo imperante: Tudo pela Nação/ Nada contra a Nação! Um pouco mais tarde, no início da década de sessenta, quando os povos das ex-colónias se decidiram pela sua emancipação, recorrendo à luta armada, o Poder Político enfrentou o mundo hostil (leia-se também ONU) com estoutra palavra de ordem: Estamos orgulhosamente sós!
Nesta mesma época, um incidente ensombrou as relações diplomáticas com o Brasil. Era presidente Jânio Quadros. O transatlântico português Santa Maria foi tomado e o chefe da rebelião, o Capitão Henrique Galvão, alterou o nome do navio para Santa Liberdade e ordenou ao comandante que rumasse à costa americana. Após negociações, esta acção, destinada a alertar o mundo, terminou com o Santa Maria aportando ao Recife. Os insurrectos ficaram no Brasil; o Santa Maria regressou a Portugal, são e salvo, como é adequado dizer-se nestas circunstâncias.
Na esmagadora maioria das povoações, havia apenas o ensino primário elementar, correspondente a quatro anos de escolaridade. O patamar de ensino imediato eram as Escolas Comerciais e Industriais e o Liceu. Apenas as capitais de Distrito dispunham deste ensino. Havia ensino privado, mas quem poderia pagar? Havia três Universidades: Lisboa, Porto e Coimbra.
Enfim, e socorrendo-me de Luís Vaz de Camões, aqui fica uma pálida ideia do que era a ditosa pátria, minha amada!


José-Augusto de Carvalho
4 de Junho de 2006.
Viana do Alentejo*Évora*Portugal