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segunda-feira, 9 de março de 2015

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Divagando




Nas margens do Vouga, a presença termal.
Respiro, no tempo, a memória amarela:
dos ontens distantes, um ténue sinal:
dos hojes, o rosto que a mágoa cinzela.

O vale verdeja. Humidade e suspiros.
A vaga esperança aos enfermos acena.
Veredas descobrem sossego e retiros
lavados de vento, a arfar cantilenas.

Perladas de mágoas, as águas do rio
espumam, noivando, incertezas de sal.
Angústias de ser… o fatal desafio
que tarda em cumprir-se país-Portugal.

Vaivém de marés… na distância adivinho
o pão levedado de alvura de linho.



José-Augusto de Carvalho
3 e 4 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Angústia







Morre-me o coração

nos versos da canção

de ninar-me



Versos no coração

a sangrar a canção

e a matar-me



Ah, versos impossíveis

tão apenas audíveis

na saudade

deste tempo que invento a desoras

onde sei que tu moras

de verdade





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Dezembro de 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

05 - ESTA IRA DE MIM * Na ansiedade da espera




De fim em fim, eu sempre recomeço…

Que Tempo vário em tempos repartido!

Viagens de aflição… e sempre, no regresso,

o sonho por haver no sonho prometido!...



A Vida, em seu viver, me quer e me consome,

querendo sempre mais e mais de mim!

Bendita sejas tu na tua fome

de aromas de poejo e de alecrim!



Em ti, eu soube do sabor a sal

e deste céu em chamas, ao sol-posto,

quando o descanso enfim me retempera.



Que venham amanhãs de sol e mosto

no vinho novo --- anseio desta espera ---

e eu possa ainda desfrutar-lhe o gosto…





José-Augusto de Carvalho
30 de Outubro de 2014.
Viana*Évora*Portugal
(Recuperando textos antigos)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

05 - ESTA LIRA DE MIM * Desconforto




É sempre o mesmo desconforto!

A chuva, o vento, a tempestade…

Fechada a barra,

vazio o porto,

há um vazio na cidade,

um vazio que nos amarra

como os barcos parados,

ao largo fundeados.



Galopes de fúria das águas

que salgam as mágoas

dos olhos molhados.

Gaivotas em terra, transidas

de frio nos molhes do porto.

Asas recolhidas,

corpos fustigados

p’los látegos do desconforto.



E os barcos parados,

ao largo fundeados,

descendo, subindo

ao sabor das vagas

que investem rugindo…

E a chuva caindo!

E o vento ululante de pragas

agredindo o porto…

E a barra fechada

e a cidade ouvindo,

ouvindo calada,

sofrendo calada

tanto desconforto.



E os barcos parados,

ao largo fundeados…

E a barra fechada

negando a largada.



*

José-Augusto de Carvalho
16 de Novembro de 2014.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Percurso

Maio maduro - Foto Internet - autor desconhecido




Da colheita de Maio Maduro,

Quanto baste de alento e de alvura.

Mitigar minha sede procuro

Na cisterna de chuva água pura.



Na farinha e na chuva que amasso,

Minha fome modela o sustento.

É da Terra e do Céu este abraço

Onde crio o que sou no que faço.



Tudo em mim é a soma do todo,

Que é de pó e que é de água – este lodo,

Num pedaço de céu que me acena…



E assim vou, perseguindo este rastro

Que lucila a saudade de um astro,

Nesta cósmica angústia terrena…



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Dezembro de 2010.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * As sombras sortílegas


No caminho, assentou a canseira.
Nem vestígios das tuas pegadas.
Solitárias, as velhas estradas
sob um manto de sol e poeira.

Do que foste ou não foste, não mais
a memória guardou o registo.
Neste Mundo de Cristo sem Cristo,
são de inércia e renúncia os sinais.

Sob a noite, as estradas paradas,
rememoram silêncios em guarda
e sortílegas sombras vadias...

São as horas, no tempo cansadas,
a velar a promessa que tarda
duma aurora que nunca verias...


José-Augusto de Carvalho
16 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 16 de julho de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * A essência da mensagem



Perdoa-lhes, Senhor! Não sabem o que fazem...

E a súplica fixou a essência da mensagem!

E séculos depois, persiste esta viagem,

Enquanto a denegri-la os neros se comprazem.



O verbo floresceu por tempos, por espaços,

e pétalas de luz juncaram as estradas,

guiando, passo a passo, as árduas caminhadas,

suadas de esperança, anseios e cansaços.



No fértil chão da fé, medrou a boa nova.

A chama do perdão, sagrado no martírio,

A lucilar no altar da vida, como um círio,

Trazia da verdade a derradeira prova.



Nos pântanos do fel, ainda as aras de ira

Incensam o estertor da idólatra mentira...





José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 12 de Julho de 2011.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Feitiço



A paz pedi, trouxeram-me o confito.

No meu jardim, secaram já os cravos.

Restaram-me, na vida, os desagravos

que irrompem do feitiço em que acredito.



Feitiço dos Jardins da Babilónia,

suspensos do esplendor que determina

que eu seja, para além, da minha insónia,

o grito que se encontra em cada rima.



E quando, à luz serena do luar,

a noite se derriça, enamorada,

eu sinto, em meu sonhar, um madrigal...



E os versos com que teço o meu cantar

são fios de brancura imaculada

de um lustre enluarado de cristal.



José-Augusto de Carvalho
7 de Junho de 2011.
Viana*Évora*Portugal

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Para além do Tempo!


No princípio era o verbo... e Deus estava só!

Na graça da nudez, a terra seca, em pó...



Da fonte que mitiga a sede do infinito,

tirou um pouco de água e o pó dessedentou...

Da lama resultou o barro... e levedou!

Depois, foi só criar. Assim nasceu o mito.



Deste mistério santo, a carne é Deus e barro!

E o barro, que é de Deus, recusa os adjectivos.

É barro e nada mais. A graça que há num jarro

também lhe vem de Deus. Sem outros aditivos.



A débil mente humana é que perversa impõe

insólitas noções e o santo barro inquina...

Mas, ai, se a gente (im)põe, só Deus é que dispõe...

e uma graça de Deus só pode ser divina!



José-Augusto de Carvalho
16 de Março de 2002
Viana * Évora * Portugal

terça-feira, 31 de maio de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Desconforto


 
Partiram tantos, rumo à áurea claridade
da fome que tem pão, da sede que tem vinho!
Deixaram para trás a insólita cidade
que apenas desconforto escolhe por caminho.

Levaram, na saudade, a triste cantilena
que, em lágrimas, se quer cantiga de embalar!
E à noite, quando a dor da solidão condena,
essa cantiga vai lhe as mágoas consolar.

Acharam desde o pão ao vinho, no labor.
E as gentes são iguais na dor e na alegria!
Apenas é diverso o modo de falar...

Aqui ficámos nós, sujeitos do que for
o dia de amanhã, que mal nos presagia
um dia mais no logro absurdo de esperar...



José-Augusto de Carvalho
27 de Fevereiro de 2008.
Viana * Évora * Portugal

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Aguarela ao frio



As árvores despiram as roupagens
que lhes vestira o ardor da primavera.

Dos êxtases de odor, em flor policromados,
dos néctares de alada embriaguez...
do efémero existir já nada resta.

Depois do sol fagueiro aconchegar,
em manta travestido,
a enxerga deserdada,
o tempo a seus desígnios já se rende
e o desconforto vem
assobiar nas telhas dos abrigos.

Agora,
nos hirtos galhos nus,
o inverno tece a frio o níveo manto
ornado de pendentes de sincelo.



José-Augusto de Carvalho
19.1.2008
Viana * Évora * Portugal

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Aguarela



Para Conceição di Castro


Naquele dia, um sol de outono austral
vestiu a cor de um Dia de Natal.

Suave, de matizes amarelos,
dourava de ternura o mês de abril.
Aqui e ali, revérberos de anelos
de uma pureza grácil e infantil.

Folgavam pelos céus os passarinhos,
às vezes arriscando acrobacias,
quem sabe pesquisando alguns caminhos
das rotas inventadas de outros dias...



E, assim, aquele dia de esplendor,
ao sol da vida ousou e foi a tela
que o génio sublimado de um pintor
reteve numa cândida aguarela.

José-Augusto de Carvalho
20 de Abril de 2007.
Viana * Évora * Portugal

quinta-feira, 26 de maio de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Meus caminhos


Nada tenho a temer.
Eu sei ler nas estrelas
os caminhos do fim...
Que as torturas a haver
não me percam de mim
se tiver de sofrê-las...
Se perdido de vez,
num sem rumo à deriva,
que a resposta ao apelo
de ansiedade e porquês
seja a dor sempre viva
de morrer a perdê-lo...
 Sei ganhar e perder,
 nada tenho a temer...

José-Augusto de Carvalho
1 de fevereiro de 2005.
Viana * Évora * Portugal

***
 La mia Strada

José-Augusto de Carvalho
Versão em italiano de Eliude Santana

Non ho niente da temere
Io so leggere nelle stelle
Le strade della fine…
Che le torture che io possa avere
Non se perdano da me
Se le dovrò subirne…
Se del tutto me perdo
Senza destino alla deriva,
che la risposta all’appello
d’ansietà e dei ‘perché’
che sia il dolore sempre vivo
di morire in perderlo…
So vincere e perdere,
Non ho niente da temere…

***
Mis Caminos

José-Augusto de Carvalho
Versão em espanhol: Alberto Peyrano

Nada debo temer.
Sé ver en las estrellas
los caminos del fin...
Si torturas ha de haber
no me saquen de mí
por padecerlas
Si me pierdo alguna vez,
sin rumbo, a la deriva,
que la respuesta al apelo
de ansiedades y porqués
sea el dolor llama viva
por morir al perderlo...
Sé ganar y perder,
nada debo temer...

 ***
Nada sobrevém ao homem que ele não possa suportar

domingo, 1 de maio de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * A estrada


           

            Nesta estrada singular
            Viana - Évora - Viana,
            é sempre este mal-estar,
            sete dias por semana.

            Além das bermas, o nada
            dos campos da solidão!
            Está de luto esta estrada
            coberta assim de alcatrão!

            É um Março de invernia,
            com sabor de primavera.
            Cansa tanto a letargia
            nesta já cansada espera!

            E eu resisto ao mal-estar,
            nesta angústia de esperar...


José-Augusto de Carvalho
7 de Março de 2008.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 29 de abril de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * O Elogio da Mãe

                       
           
             Que dia pode haver que te consagre,
            se há tanto os dias todos já são teus?
            Se todos nós, quer crentes, quer ateus,
            em ti reconhecemos o milagre?

            Teu ventre é o sacrário da promessa
            que sempre, imperecível, é cumprida,
            na vida que se dá de novo à vida,
            num hino de louvor que nunca cessa.

            O teu regaço terno embala o mundo,
            o mundo que te esquece e que se perde
            na horas em que mais de ti carece.

            Do céu azul ao pélago profundo,
            do  luto preto à esperança verde,
            até ausente, és tu quem permanece.



Viana do Alentejo * Évora * Portugal
José Augusto de Carvalho

quinta-feira, 28 de abril de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Livro aberto



                                                           Para a Lílian Maial
 

    Nas páginas do tempo, em livro aberto,
    o testemunho inscreve a rebeldia:
    a solidão da sede do deserto
    esconde sempre um poço de água fria.

    As coisas nunca são o que parecem.
    Do céu, o vento as nuvens afugenta.
    Se oásis de ternura reverdecem,
    que poço de água fria os dessedenta?

    Que Estrada de Damasco, oh Síria antiga,
    por entre os desencontros dos abutres,
    no tempo sobrevive livro aberto?

    Que poço de água fria te mitiga,
    na solidão da sede do deserto,
    se há tanto tempo só de sal te nutres?



José-Augusto de Carvalho
3 de Abril de 2009.
Viana de Fochem+Évora*Portugal

quarta-feira, 27 de abril de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * A caminhada



                                                      Para o Poeta Herculano Alencar, meu Amigo

Na palavra é que vou e me enfrento,
neste outono amarelo da vida.
Nas rajadas infrenes do vento
meu destino de folha caída.

No bornal, a palavra atrevida
na saudade que ainda acalento:
primavera no sonho tecida
com delírios de sal e fermento.

Ajudando o meu passo indeciso,
o cajado me ampara e tacteia
o caminho que experto preciso.

Só o sol, que no céu alardeia
egotismos de instante Narciso,
se diverte e de luz me encandeia.
 

José-Augusto de Carvalho
Viana de Fochem
18 de Outubro de 2009

sexta-feira, 22 de abril de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Os mistérios do verbo

        

Os mistérios do verbo, imprecisos evolam,
no devir, os sinais --- desencontros e esperas.
Ansiedades de mim que em fogueiras se imolam
e renascem da cinza a florir primaveras.
*
São gorjeios na noite inventando as auroras,
madrigais irisando aguarelas de rimas!
Versos de alma, talvez, segredando-me as horas
em que vens, devagar, e o feitiço sublimas...
*
Foi o mar que te trouxe, embalada nas ondas,
polvilhada de espuma e promessas de sal...
E na barca de mim, à deriva e sem sondas,
naufraguei num ilhéu de pimenta e coral.
*
E os mistérios do verbo, aureolados de espanto,
encontrei-os no enleio em que sou e te canto.

José-Augusto de Carvalho
18-19 de Abril de 2011.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 20 de abril de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Perenidade

                                                   
                         

Não são lendários os fantasmas de ontem,
que assombram os castelos em ruínas...
Qualquer que seja o tempo a que remontem
                és sempre tu que em nós te determinas.

No pó que sob as pedras arrefece
e é cinza na lembrança que perdura,
germina a claridade que nos tece
nas sombras frias desta noite escura.

No todo somos tempo em movimento.
A rotação da Terra gera os dias,
a translação da Terra gera os anos...

Nas ânsias, nas angústias, o memento
cavalga no silvar das ventanias
e irrompe p'los recônditos arcanos.


José-Augusto de Carvalho
15 de Novembro de 2006
 Viana de Fochem* Évora * Portugal

segunda-feira, 18 de abril de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Perturbação



As grades nas janelas.
O plúmbeo das vidraças.
As hirtas sentinelas.
As vagas luzes baças.

Novelos de água densa.
O frio rodopio.
A túnica suspensa
do corpo-desafio.

As ondas de outros mares.
Os gritos sufocados.
Os medos nos esgares
dos barcos ancorados.

As bússolas incertas.
À tona as caravelas.
As mágoas descobertas,
velórios de outras velas.

Silêncio, escuro, nada.
Farol na tempestade.
Sem cor nem claridade,
a lâmpada apagada.

Mataram Aladim.
Mataram a essência.
Nem chamam mais por mim
meus sonhos de inocência...


José-Augusto de Carvalho
10 de Outubro de 2002.
Viana*Évora*Portugal