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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XII



Ah, as coisas que eu não sei!
E, um dia, mais saberei?
Ah, mas em meu derredor,
o saber é tanto, tanto,
dum saber maior,
que, siderado, me espanto
por só saber o que sei!
E, um dia, mais saberei?
No não-saber que me cabe,
(e saber mais tanto quis!)
eu recordo a velha história
do irmão que cala o que sabe
ao que não sabe o que diz...
Ah, esta minha memória!...


José-Augusto de Carvalho
4 de Setembro de 2001 - 2 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

06 - O LIVRO DAS REFLEXÕES DE GABRIEL DE FOCHEM * II Reflexão



Caminho, decidido, enquanto o tempo der,
na passada medida

de quem sabe, à partida,

que terá de chegar até onde puder.
 
Desafio a borrasca.

Inclemente me alaga a chuva que derrama.

E este frio que enregela, a doer! E esta lama

que, pastosa, me atasca!
 
Mas decidido vou, enquanto o tempo der

e até onde puder!

 

José-Augusto de Carvalho

Setembro de 2001.

Setembro de 2010

Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 22 de abril de 2011

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XVIII






Deixa assentar o pó.
Foi só um torvelinho,
um torvelinho só,
perturbando o caminho.
É vulgar, numa estrada,
algo de estranho haver.
Mas, quando vamos ver,
vemos que não é nada.
São os rebates falsos
dos traumas ancestrais
inventado percalços.
Fantasmas que passais,
os nossos pés descalços
não param nunca mais!


José-Augusto de Carvalho
6 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XXI




Não sou muito nem pouco, acredita.
Sou, apenas e só, o que sou,
 a viagem aflita e finita
em que vou.
Não sou fogo nem água, nem ar.
E não voo e não nado e não ardo.
Talvez silvo de um dardo
que, sem alvo, perdeu o objectivo.
Ou talvez o sonhar
que está vivo
e receia acordar.

José-Augusto de Carvalho
7 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * IX





 Sonho acordado o mesmo sonho antigo,
que vem desde o princípio disto tudo.
Fiz dele o meu caminho, que prossigo,
mas olho em derredor e não me iludo.
Em cada esquina, atento, o predador,
dissimulado, espreita a sua presa.
Montado o cerco, quem se pode opor,
às investidas vis e sem defesa?
De assalto, já tomaram a cidade.
Na praça antiga, ergueram o patíbulo,
onde, em sufoco e náusea, a dignidade
é mais violada do que num prostíbulo.
O reles e o primário por divisa!
E a presa, apetecível, agoniza...





José-Augusto de Carvalho
10 de Agosto de 2001 - 2 de Outubro de 2010

Viana * Évora * Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * Reflexão VIII


O medo de morrer,
como se a morte fosse
um castigo a sofrer...
O tempo de nascer
sempre consigo trouxe
o tempo de morrer...


José-Augusto de Carvalho
7 de Agosto de 2001 - 2 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XXVII

 Desenho de José Dias Coelho (Internet)



O Tudo e o Nada...
Assim, a contradição,
ei-la, exposta e desnudada,
sem disfarce ou distorção.
O Bem e o Mal.
Não envelheceu Mani.
Sempre o pão do teu bornal
há quem o queira p'ra si...
De um lado, as hostes celestes...
Do outro, as hordas infernais...
(o purgatório neutral...)
ambas envergando as vestes
dos instantes carnavais
duma farsa capital.


José-Augusto de Carvalho 
Redigido em 14 de Julho de 2001.
Corrigido em 10 de Junho de 2010.
Mani, filósofo persa, século III.

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XXIII




Direito escreverá por tortas linhas...
Que fórmula subtil
de se afirmar a Fé em louvaminhas!
Quem poderá, quer crie, quer aniquile,
ser sempre o Bem que prega o campanário,
até quando se vê o seu contrário?
Porquê a perfeição
usando a distorção?

José-Augusto de Carvalho
11 de Setembro de 2001 - 3 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XVI



          
Esta indigência
ofende a inteligência!
Esta postura assumida
retrata com nitidez
uma visceral nudez
sem vergonha nem decoro:
andar-se, num desaforo,
sempre de mão estendida:
-- Uma esmola, por favor...
...que Deus lhe pague, senhor!...


José-Augusto de Carvalho
5 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XI



Vestiram de luto
as pedras medievas.
Quando a noite desce,
no luto perscruto
o imo das trevas,
que cresce, que cresce,
buscando o sentido
do luto vestido.


José-Augusto de Carvalho
3 de Setembro de 2001 - 2 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * X



São vómitos, senhor, são vómitos reais...
E fétidos, senhora, e fétidos de mais...
É alto o bastião, senhora, não temais...
E o fosso a transbordar, senhora, a transbordar,
impede a populaça hirsuta de atentar
contra a pureza em flor dos nossos esponsais.
Pressentimentos tenho e feios e ruins...
Senhor, que Deus nos guarde,
antes que seja tarde!
Senhora, não temais! Ainda há os mastins
sedentos de festins!
Senhor, que Deus nos guarde,
antes que seja tarde!
Senhora, não temais!
Para além das muralhas
da nossa fortaleza,
só há uns animais
famintos de migalhas
da nossa régia mesa...


José-Augusto de Carvalho
3 de Setembro de 2001 - 2 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * VI



Aos ombros carregamos
todos os nossos medos,
os medos que ocultamos
como se fossem trágicos segredos.
Que fado ou maldição
insiste em nos querer
nesta condenação,
a doer, a doer?...

José-Augusto de Carvalho
7 de Agosto de 2001 - 2 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XXII



A sujeição do sujeito,
quer seja determinado,
quer seja indeterminado,
é causa, é gesto, é efeito
do abuso de predicado.
A astúcia que o verbo tem!
Como sujeita o refém!


José-Augusto de Carvalho
5 de Setembro de 2001 - 3 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XXV




Sem manta por abrigo,
o céu sobre o meu dorso,
à deriva, prossigo.
Sem medo nem esforço.
À chuva, ao frio, ao sol,
instante o movimento.
Se o chão é lamacento,
não temo que me atole
buscando outro mais firme.
Comigo na bagagem,
pressinto diluir-me
no todo da paisagem.
E a singularidade
da minha condição
perde-se na voragem
duma pluralidade
onde as partes do todo
se esbatem nos devires do lodo...
Infinitude e caos - constante mutação.


José-Augusto de Carvalho
21 de Setembro de 2001 - 4 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * III




Recuso e no meu não florescem as manhãs.
Ao sol fraco e tardio,
abertas, as romãs
sangram num desafio.
Quis ser também assim, fugaz, a viva essência,
no tempo que me coube.
Se não pude ou não soube,
paciência...

José-Augusto de Carvalho
Agosto de 2001./Setembro de 2010.
Viana*Évora*Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XIV


Monte Alentejano, Internet

Caíram as sombras frias
sobre o espanto dos montes.
As fogueiras que acendias
nem ao sol de Agosto as contes!...
Hoje, os caminhos são outros.
Os montes ao abandono!
Cavalos, éguas e potros,
há muito dormem o sono
duma memória perdida
de ciganos à deriva...
Diz um senhor bem-falante,
a ressumar importância,
que tudo muda  -- É a vida!
E a memória, subversiva,
corrige: Olhai o desplante!
Deixai passar a ignorância!...

José-Augusto de Carvalho
5 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XXIV




O verbo em sinfonia.
O rito. A cor. A dança.
Pureza em harmonia.
Os corpos nus e lassos.
Uma vertigem mansa,
bordada de cansaços,
a infinitude alcança
dos siderais espaços.


José-Augusto de Carvalho
14 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

quinta-feira, 21 de abril de 2011

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XV



Os tempos do desatino
embotam as mentes lerdas,
presumindo-lhes que as perdas
são azares do destino.
Porque será que o destino
só embota as mentes lerdas
e nunca provoca perdas
a quem gera o desatino?

José-Augusto de Carvalho
5 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * XX



Mais alto, se puderes!
Não sei se Deus existe.
A dúvida persiste,
mas vou onde quiseres.
Irei, porque acredito
até ao infinito!
Irei em liberdade.
Sem peias nem dever.
Nada me persuade.
Por mim, irei até me achar ou me perder.
Fogueira que não arde,
não pode ser fogueira.
Quando muito, será falaz alarde,
que presumido e fútil,
só desfralda a bandeira
da verborreia inútil.
Mais alto, se puderes!
Irei onde quiseres!

José-Augusto de Carvalho
7 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

06 - O Livro das Reflexões de Gabriel de Fochem * V





.
A orgia dos medíocres continua!
Nos palcos da cidade, a farsa plena!
Atónito, de cena para cena,
O vulgo, num delírio, se extenua.
O conto do vigário, apelativo,
Desperta, numa esdrúxula apetência,
instintos primitivos de indigência.
Que náusea estar, aqui, sujeito e vivo!
.
José-Augusto de Carvalho
6 de Agosto de 2001 - 1 de Outubro de 2010.
Viana*Évora*Portugal