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segunda-feira, 9 de março de 2015

30 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Posição





Que distracção! Confesso o meu pecado
de ter nascido sem pedir licença.
Dos longes donde vim, maravilhado,
nascer não é pecado nem ofensa.

Dos longes donde vim, na graça imensa,
nascer é o milagre revelado.
No grito da promessa, a recompensa
do sonho feito verbo conjugado.

Pecado é não cumprir a lei da vida,
é dizer não ao sol que inventa o dia
e à noite debruada de luar.

Pecado é esta lei animicida,
no sonho aniquilando a melodia
e o meu direito vivo de cantar.



José-Augusto de Carvalho
9 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul


30 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Ansiedade





Louvado seja Deus,
que fez a Terra  e os Céus,
só vejo fariseus
e eu no banco dos réus!

Passaram dois mil anos
E há os meus grilhões
e há os mesmos tiranos
e os mesmos vendilhões!

O tempo está cumprido!
A mentira vigora!
Temendo que se exponha,

o agonizante ungido
ainda o fim implora
do tempo da vergonha!




José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 4 de Agosto de 1993.


domingo, 8 de março de 2015

30 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Queda




Para o poeta José Ferreira Marques de Sousa


De barro e de água, a massa a modelar.
Artista, a mão ensaia conceber.
No céu, azul, o manto tutelar.
Humana, a vida vai acontecer.

Milagre foi a luz no meu olhar.
Desgraça o nunca ter sabido ver.
Do medo fiz a pedra de um altar…
E nem assim me soube merecer.

Deixei a vida em mim entretecer
a malha carmesim, em avatar
ferido só de nada e de não-ser.

E desde a queda, expulso do meu lar,
até ao fim do meu acontecer,
apóstata, persisto em me negar…



José-Augusto de Carvalho
25 de Janeiro de 2004.
Viana*Évora*Portugal




segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

30 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Poema para Maria de Magdala



(Última Ceia, de Leonardo da Vinci)



Que manto de silêncio assim te esconde,
perdida sob névoa e banimento?
Já nem o eco à minha voz responde!
Até te silencia a voz do vento!



A boa nova, espanto e maravilha,
aos outros que ficaram, tu levaste.
Eleita, confirmaste, na partilha,
a força da raiz na frágil haste.



O turbilhão dos tempos te tragou.
Das trevas sem registo e sem memória,
a lenda que o sem tempo deslumbrou
no todo o sempre escreve a tua história.

Na tela onde o pintor te quis dilecta,
eu vivo a minha angústia de poeta.




José-Augusto de Carvalho
26 de Dezembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

30 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Trova da Estrada de Damasco



Damasco tem uma estrada,
uma estrada que porfia
ser, em cada caminhada,
o raiar de um novo dia.

Pode haver outras estradas,
mas em mais nenhuma existe
o vestígio das pegadas
que ao tempo vário resiste.

No além do tempo sem fim,
quando não houver mais nada,
ainda a voz de Caim

há-de gritar, condenada:
para me salvar de mim,
Damasco tem uma estrada.

José-Augusto de Carvalho
20 de Agosto de 2006.
Viana *Évora*Portugal