domingo, 16 de novembro de 2014

10.05 - OS MEUS AMIGOS * Silas Corrêa Leite

OLHARES



“...Eu ando com medo/De que um dia/Ainda ache a tristeza normal” 
Recado, Renato Teixeira)


-Você já reparou no olhar de uma criança que está fazendo tratamento contra o câncer?
É a maior dor do mundo; que um ser humano sensível não pode suportar...
A criança está ali, mas o olhar dela não está mais... sabe que vai morrer... faz tratamento...
O olhar está despido da alma. Santo Deus!
Ela tira a alma para ir ao médico, ao hospital, ao laboratório...
E você a olha e ela sabe que você está olhando a incompletude de um ponto de interrogação nela...

Moro perto de um hospital que recebe crianças da América do Sul toda
Para tratamento contra o câncer...
Cabeça raspada; inchadas, pálidas, são anjos mambembes...
E você poeta com um cravo enferrujado no peito, um arame na alma
Olha para a criança; repara nos olhos dela e sofre a dor dela
Colocando-se no lugar do outro você sofre... e pede a Deus por ela... às vezes até duvida de Deus
Uma criança tão bonita, tão pura, inocente, morrendo de câncer...

Você procura os olhos de Deus naquele olhar... naquela situação... naquela morte anunciada... naquela alma-criança
E não obtém resposta. Todo silêncio é dor. Pior dor do que a de sua própria morte...
E a criança brinca com o galho da árvore roçando a janela do ônibus
Quando uma luz de fora brinca com a dor da mãe daquela criança
Que é uma mãe morrendo também...
Que é uma dor-mãe. Você sabe o que é isso?

A criança muda de foco, procura pistas, significados, brinquedos fantasmas
Mas o olhar está parado na dor; um silêncio parado no ar...
Você sabe o que é tirar a alma de uma criança e ela ainda estar Lá, o que quer que Lá seja?
O olhar – uma viagem muito além da angústia, do desespero...
É um olhar de paz resignada; de entrega...
O coquetel... a quimioterapia... -Mãe, Deus existe?
Como você responderá a  uma criança nessa hora? Deus? Que Deus?
-Sim, filho, sim criança, sim amor do mundo... Dorme, dorme que a mãe canta uma cantiga de ninar para a dor de ser mãe dessa criança...

A morte foi decretada no DNA. A criança está ali. Brinca com fantasmas.
Olha pra você. Você é menos do que ela, você é nada... a vida é nada...
Mas você olha para os olhos daquele ser, espírito, carne, lágrima e dor...
Qual o sentido da vida? (Não há vitória na morte, está escrito)...
A noite escolheu uma criança para habitar...
A morte vai chegar para você, quando você for velho...
Mas já está naquela criança...
A morte é o trenzinho dela, os soldadinhos de chumbo dela, a boneca de pano dela... a arapuca dela...
A morte; com ela brinca de pular carniça... um dia brincará de esconde-esconde...
No jogo de amarelinha da vida-cão, a morte nos olhos da criança, é a triste pior coisa de se ver
Mas você perde a hora de descer no ponto, perde a honra de existir, e fica olhando o veiculo sumindo na curva do cimento armado do além-dará
E o coração pisado, vai para a escola, e uma criança no percurso pergunta: Professor, por que você está chorando?
E você olha o aluno pobrinho, e responde: Não foi nada não menino, foi só um passarinho que pousou no meu olhar de poeta bobo
E segue seu caminho, órfão de uma criança que vai morrer de câncer
E chegando à escola enche a lousa, lastra-se, lavra-se, canteiro e dor, giz e peito entrevado, tristeza e fúria aplacados...
Mas porque sabe que a esperança é a inteligência da vida
Acredita que quando o mundo acabar; quando a morte matar a morte
E você estiver frente a frente com Jesuscristinho, você ainda há de querer saber; mas olhará nos olhos Dele e talvez ainda assim verá em luz
Nos olhos do filho do criador a tua dor revestida daquele amor de mãe
E ainda estará lá
a lágrima de uma criança que morreu de câncer...

../..

(Silas Correa Leite)
Da Série, Perdoem, Que eu Só Escrevo o Que Vi e Que Sinto
www.artistasdeitarare.blogspot.com/
E-mail: poesilas@terra.com.br

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

10.04 - OS MEUS AMIGOS * João de Sousa Teixeira

Com o maior prazer, divulgo o livro mais recente de João de Sousa Teixeira, Amigo de há longos anos e poeta e prosador que muito admiro. 
Aqui fica uma sugestão de leitura de qualidade. 
Abaixo da imagem, incluo um poema deste livro, poema que servirá de aperitivo aos leitores deste blogue.
Saudações cordiais.
José-Augusto de Carvalho
14 de Novembro de 2014.
Viana*Évora*Portugal



AS PAPOILAS

A noiva não mostra um arrumado bouquet
de espampanantes papoilas, mas de rosas.
Ainda que estas sejam só para quem vê
e a brava flor a chama íntima das fogosas.

Mas se mentir quiser a noiva prazenteira
pode, sobre o ventre inchado, qual balão,
decorar-se de casto ramo de oliveira
mas papoilas é que não, papoilas é que não!

Quando muito, estrelícias, verde rama ou goivos,
gerbérias, buganvílias, espigas férteis, loiras,
que dão realce às flores e dão aos noivos,
mas nunca a cor e a lascívia das papoilas.

Sou seu devoto, além do trigo nas searas,
quando rompem vermelhas ao sabor do vento,
cravos da mesma cor e outras menos raras,
mas isso é com outro fim; de outro casamento...


35 - CANTO REVELADO * Assim seja!





Que o tempo de hoje se situe e seja o desafio!

Que a folha desprendida ensaie o rodopio!



Que as dores das origens

se evadam nas manhãs

e sangrem as vertigens

nos outonais delíquios das romãs!



Que após o longo tempo em gestação,

das húmidas entranhas brotem lanças!

Lanças subindo, raio acima, a tentação

da luz que vem do céu no olhar duma criança.



Que venha, num sinal tão manso de evangelho,

anunciar o pão,

o pão da fome, o pão do menino e do velho

que, ali no largo, jogam ao pião!





José-Augusto de Carvalho
13 de Novembro de 2014.
Viana*Évora*Portugal




quarta-feira, 12 de novembro de 2014

10.05 - OS MEUS AMIGOS * Silas Corrêa Leite

O poeta Silas Corrêa Leite


Solução Final


Para Anne Frank

Parece que só faz um minuto
Que o último trem partiu para Auschwits
E já estão preparando outros fornos, outros gases, outros trens,
outros genocídios, outros refugiados, outros inocentes escolhidos para a viagem...

Os supermercados caros serão tomados – bem-aventurados
Pelos cinturões de miséria
Os condomínios ricos serão cercados – bem-aventurados
Por pobres morrendo de fome
Os tribunais decrépitos serão julgados – bem-aventurados
Por condenados inocentes
Os policiais serão predados – bem-aventurados
Pela justiça das ruas...

Quem serão os próximos? Os latinos? Os noias?
Os negros de novo?
Os índios de novo?
As mulheres de novo?
Ou procurarão ciganos, maçons, asiáticos, islâmicos, black blocs
E os colocarão nos trilhos para a solução final?

Tudo novamente de tudo
A história repetindo o erro.

A África mãe ainda estará lá
Quando os brancos forem extintos
Para começarem tudo de novo
Um novo céu, uma nova terra?
....................................................

Ciber poeta silas correa leite
e-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net

10.05 - OS MEUS AMIGOS * Silas Corrêa Leite

O poeta Silas Corrêa Leite



Poema 

“Infância, Canto e Dor”

Para Fatoumata Diawara (Cantora Malinesa)


Escrevo porque tenho a necessidade de cantar.
Entre os beduínos, o homem que conduz os camelos, quando está só no deserto,


Ele canta. Eu estou lá.
Eu estou só e canto sobre a vida, sobre mim.
Outros vão escutar e, talvez, cantar também...

(Poeta Árabe Khalid Al-Maaly)


Começaste a cantar nas ruas, para recolher migalhas
Para colocar comida em casa – Eras uma criança
Cantavas em casamentos, batizados, becos de sombras, pontas de ruas, e dizias:
-Gente, eu Canto porque tenho fome...
Perdoem se meu canto é rude e primário e amargo e triste.
Se minha dor entrar em transe, e meu canto for melancólico, perdoem
Minha mãe meus irmãos precisam comer...
(Eu poderia morrer – sobraria mais comida pra todos eles
Mas, quem os sustentaria com o canto triste, feito um pardal rueiro?)
Ainda muito criança de tudo, cantaste nas ruas
Nas praças; a voz de inicio fraca como uma taquara rachada
Mas a dor engrossa a voz, afina a alma, tange a tristice. E os sentimentos rompem como um canto da Terra de Guilgamesh
Olhem meus olhos. São tristes. Olhem minha cara. Tenho cara de pobre? Pois eu sou pobre.
Minha infância, meu canto, minha voz soando nos corações, o que diz?
Meus olhos às vezes ficam marejados quando eu canto.
(As pessoas não compreendem a dor que eu sinto.
Sou eu essa voz, essa dor, esse canto.)
Uma criança canta para a família não morrer de fome.
Não tenho dinheiro nem para alugar um simples tambor barato que me acompanhe feito um coração serelepe.
Não tenho forças nem para bater palmas com o meu cantar
Não tenho muita força nem para me manter em pé, me sustentar. Sou uma criança...
Mas é o meu canto que me segura; minha voz sustenta meu corpo fraco
Sou todo eu, essa voz que vocês ouvem
(Mas alguns me olham detravessado
Alguns se repugnam, como se eu fosse uma criança leprosa
Alguns têm medo da minha tristeza e da minha miséria
Mas eu sou só uma criança pobre de rua que canta)
Perdoem meu canto, minha dor de existir; preciso levar algumas moedas para casa
Para podemos louvar a Deus antes do prato de sopa de pedras
Perdoem se minhas lágrimas estão nos meus cantos, nas minhas vestes simples, nas minhas palavras...
Não posso nem dançar uma dança tribal; eu morreria de cansado, eu não teria força para sobreviver cantando e dançando
Então eu danço com a voz; perdoem o tambor do meu coração sofrido
Perdoem se eu sou uma criança com fome que canta
Levem meu Canto para onde forem. Suas casas, palácios, igrejas e clubes.
E cantem vossos cantos por mim também, em meu nome, em nome daqueles que vocês adornam no presépio elétrico...
Todos os dias as pessoas se afastam da religião e vão em busca de um Deus verdadeiro
Mas eu tenho fome, e tenho sede – e preciso das migalhas que caem das mesas de vocês...
Se vocês puderem me ajudar; seu não tiver atrapalhando o comércio e o lucro de vocês (e os deuses de vocês - e as guerras de vocês)
Sei que às vezes para os sábios, a fé remove religião, mas a única religião deveria ser o amor...
Mas, o que uma criança pode entender, se não só cantar a sua angústia, a sua opressão, a sua dor; a dor que lhe deram
E precisa se sustentar nessa dor para sobreviver
E levar alguns tostões para casa. E dizer à mãe abandonada; e dizer aos irmãos humildes e esperançosos: -Eis o meu suor, eis a minha dor, eis o meu sangue...
Comei e bebei de mim, de minha dor, de meu amor, de minha fé.
E todos se alimentarão do meu canto em sangue. E do meu amor lavrado de cantagonias...


-0-

Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, Cidade Poema
Autor de GOTO, A LENDA DO BARQUEIRO NOTURNO DO RIO ITARARÉ
E-mail: poesilas@terra.com.br
WWW.portas-lapsos.zip.net

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

36 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Nostalgia de Abril








Mais um Inverno frio nos deixava…

Mais uma Primavera prometia…

E sempre uma esperança pontilhava

de estrelas este céu que se fechava

ao rútilo esplendor dum claro dia!



E sempre esta esperança que morria

em cada frustração que nos matava!

E sempre o desespero arremetia

na força renovada que nos dava

a Fénix que das cinzas renascia!



Ai, tanto se morria e renascia!

E sempre esta esperança acalentava.

Que fértil terra de húmus e porfia

a força dava à força que faltava

nas horas em que a vida mais doía?



De sangue e desespero se amassava

o pão que noite adentro se comia!

De sol a sol, o corpo tudo dava

a troco duma jorna que minguava

enquanto o desespero mais crescia.



Ah, mas, na sombra, a noite murmurava

enleios, numa terna melodia!

E antes de adormecer, já madrugava

nos versos da canção que prometia

livre e fraterna a terra que chegava!



Chegava a Liberdade que cantava

lusíada, em feliz polifonia,

o fim do pesadelo que matava

no dia todo em luz que despertava

a vida que chorava de alegria!



O pátrio povo em armas devolvia

o berço que das trevas libertava

ao povo que sem armas acudia.

E um povo todo irmão se estremecia

no imenso e terno abraço que se dava.



Navegar é preciso, prometia,

agora que o viver se precisava!

Nos braços embalada, a pátria ouvia!

E quanto mais ouvia mais se dava

ao sonho que se ousava e florescia.





José-Augusto de Carvalho
27 de Outubro de 2014.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 12 de outubro de 2014

14 - ESCAPARATE * «Pátria Transtagana»



Ontem, 11 de Outubro de 2014, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Aguiar, município de Viana do Alentejo, ocorreu o lançamento do livro «Pátria Transtagana», do qual sou autor, com prefácio do Coronel João Andrade da Silva e posfácio da Professora Maria do Céu Pires, Doutora em Filosofia pela Universidade de Évora.


Na mesa, da nossa esquerda para a direita: Rosa Barros, minha amiga e Professora de Filosofia do Ensino Secundário; Professora Doutora Maria do Céu Pires; Presidente da Junta de Freguesia de Aguiar; Coronel Andrade da Silva; e eu, José-Augusto de Carvalho.

Seguidamente, divulgo o texto da minha intervenção:


Boa tarde, Vila de Aguiar!

Boa tarde a todas as pessoas que puderam e quiseram vir assistir ao lançamento do livro «Pátria Transtagana»!

1.

Talvez eu esteja violando normas ao ser o primeiro a usar da palavra.

Evidentemente que muitas normas terão, como todos os ovos, o destino último de ser quebrados. Será este o caso? Quisera que sim.

Não é por inconsideração que me imponho na abertura desta sessão de lançamento do livro «Pátria Transtagana», mas sim porque é indispensável situar-me e situar este encontro.

Aguiar não é apenas uma das muitas localidades da Pátria Transtagana. É uma povoação que conheço desde menino. Aqui vinha com meu pai, num carro de varais, puxado por um possante muar. Mas esta razão que aduzo não poderia ser determinante para a minha preferência.

Determinante foi o convite que recebi, há meses, do Executivo da Junta de Freguesia de Aguiar para vir ler, neste mesmo salão, alguns textos dos muitos que ando escrevendo desde quase o amanhecer da minha existência de escriba impenitente, já lá vão quase setenta anos.

Portanto, Aguiar soube de mim como autor e honrou-me com um convite. Convite que aceitei agradecido.

Ora porque «Pátria Transtagana» reclamava o seu lançamento no Alentejo, como poderia eu, agora, ignorá-la ou preteri-la?

Como poderia eu não vir felicitá-la nesta data e associar à sua festa o lançamento deste meu livro?

Festa em que a vila de Aguiar comemora mais um aniversário da sua condição de Freguesia de Abril.

Eu sei que, por solicitações familiares e afectivas, outras povoações do nosso pátrio Alentejo poderiam reclamar-me o lançamento deste livro: Viana, onde eu nasci e onde nasceram muitos dos meus antepassados de apelido Carvalho; Serpa, onde nasceu minha mãe; Alcácer do Sal, onde nasceu minha avó materna Rosa de Jesus; Alvito, onde nasceram meus bisavós José António e Catarina das Dores; de novo Alvito, onde nasceu também minha bisavó Margarida.

Com excepção de meu avô materno, que desceu da transmontana Chaves buscando a sua moira encantada de sempre, a minha avó Rosa, toda a minha memória é transtagana.

2.

Quanto a mim, que poderei eu dizer?

Não tenho títulos nem cargos públicos ou privados e nem honrarias a recomendar-me.

A recomendar-me tenho apenas a minha condição de alentejano.

Também terei a recomendar-me um trajecto cívico de amor e respeito, de exaltação e defesa da Pátria Transtagana e das suas gentes, das minhas gentes.

Como vêem, nada de relevante há a dizer de mim, porque amar a nossa terra e a nossa gente é um apelo do mais recôndito de nós e não um dever ou uma qualidade racionalmente considerada.

3.

E no nosso caso de alentejanos, mais se imporá a nossa terra e a nossa gente, porque desde os recuados tempos do alvor da nacionalidade portuguesa que é a nossa, a Terra Transtagana e as suas gentes foram maltratadas, menorizadas, desprezadas, mortas ou expulsas.

Aquando da Reconquista, apeado o poder muçulmano, ninguém aqui mereceu a confiança dos reconquistadores. Ninguém!

Nada tenho contra outras gentes que queiram viver connosco nesta nossa terra e decidam ou não integrar-se no todo das nossas gentes; mas tenho tudo quando nos recusam o legítimo direito de mandarmos na nossa casa.

Urge a regionalização, única possibilidade de legitimamente, e sempre no quadro constitucional da Pátria Portuguesa, aspirarmos ao direito de escolher a nossa vida e o nosso destino.

Verdade é também que as gentes transtaganas não estão isentas de responsabilidade:

-- no passado, quando, algumas vezes tiveram voz e poder para tentarem impor-se, cederam a valores e interesses que lesaram os seus;

-- e no presente, quando, tendo voz e poder relativo para se impor, escolheram a resignação ou mal escolheram quem os represente na superior condução do seu destino colectivo.

Longe estive do nosso Alentejo; agora no nosso Alentejo estou, definitivamente, assim espero. Nunca procurei os favores dos poderes públicos e privados. Nunca os procurei e nunca os tive. E nunca os terei. E não é por teimosia, mas por opção.

E quanto a direitos, apenas tenho os direitos que a Lei Constitucional me confere.

4.

Sabem muito bem os mais velhos, como eu, o que foi viver, malviver, digo eu, sob o Estado Novo de Salazar e Marcelo Caetano.

Sabem os mais velhos, como eu, o que foi descobrir a Liberdade quando o Movimento dos Capitães nos devolveu a dignidade e a esperança numa Madrugada de Abril aureolada de cravos e de aromas de fraternidade e de paz.

Sabem os mais velhos, como eu, as dificuldades que logo surgiram, criadas pela resistência tenaz dos poderosos a quem não servia nem serve um povo adulto e livre.

Sabemos que esta terra e suas gentes lutaram desde a consolidação da independência de Portugal.

Estivemos sempre do lado certo da História e pagámos sempre o preço que nos foi exigido em bens, em sacrifícios, em sangue derramado.

No presente, resiste connosco a memória viva da Revolução dos Cravos e a vontade de transformarmos em realidade a sua promessa de finalmente haver e perdurar Abril em Portugal.

Aqui está, entre nós, um Capitão de Abril, um dos homens do Movimento das Forças Armadas que devolveu a todos nós a dignidade de mulheres e homens livres.

Um Capitão de Abril que conheceu palmo a palmo as terras transtaganas e as suas gentes.

Um capitão de Abril que nos ama e tudo arriscou por nós.

Um Capitão de Abril que está, também, nas páginas do livro que lançamos hoje.

Devemos-lhe tamanha distinção.

Bem-haja, Coronel Andrade da Silva!

E este bem-haja é extensivo aos seus camaradas de armas que nos ajudaram a entrever a esperança.

Com um segundo bem-haja relevo a Professora Maria do Céu Pires, Doutora em Filosofia, e gente da nossa gente, por ter aceitado ligar o seu nome e o seu amor ao Alentejo a este livro em lançamento.

E o meu terceiro bem-haja releva a querida Amiga Rosa Barros, professora de Filosofia do Ensino Secundário, uma filha dilecta dos Açores e já também alentejana do coração. Querida Amiga que empenhadamente me tem acompanhado neste meu percurso acidentado desde o meu regresso definitivo ao Alentejo.

5.

Na hora da gratidão, saúdo o Executivo da Junta de Freguesia de Aguiar pelo acolhimento e ao qual reitero a minha disponibilidade para colaborar em sessões culturais e cívicas, sempre que considerar oportuno e desde que para tanto eu esteja em condições de corresponder.

Nesta mesma hora da gratidão, saúdo também a gente da minha gente que está aqui e os familiares e Amigos naturais de outras regiões da Pátria Portuguesa que quiseram e puderam associar-se a este lançamento.

Finalmente, uma palavra de profundo pesar e de imperecível saudade para aqueles que partiram desta vida e exclusivamente por esse motivo não estão aqui também amparando o objectivo único deste livro: dignificar o Alentejo e por ele toda a Pátria Portuguesa.

Até sempre!