quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

36 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Aforismos




É quando a morte chega à Feira das Vaidades
que ganha nitidez a nossa condição.

É quando o sal amarga e queima as veleidades
que a morte nos reduz à nossa dimensão.

É quando a luz do sol, cegando o vaga-lume,
esmaga a pequenez da néscia presunção.

É quando por grasnar chilreio se presume
que uma qualquer lamúria intenta ser canção.

É quando a Lua-cheia incita à tentação
que a noite se revela enleio enamorado.


É quando não há mais varinhas de condão

que o charlatão se quer o príncipe encantado.

É quando já ninguém consegue acreditar
que o verso em armas faz da vida o seu altar.


José-Augusto de Carvalho
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
In «Da humana condição», 2008

12 - GABRIEL VIVE! * Quem-2



Quem disse e já não diz
que os nossos pés alados
são, na terra, a raiz
de astros incendiados?

Quem disse e já não quer
ser verbo e ser futuro,
enqunto o sangue der
cor à luz que procuro?

Quem disse e nega agora
ter dito e defendido
que o drama que nos chora
não mais seria havido?

Quem disse e não honrou
a jura que jurou?


José-Augusto de Carvalho
1 de Fevereiro de 1999.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Perspectiva

*
Nem sempre é o contraste o clímax certo.
Nem sempre o que é monótono aborrece.
O Belo, que perturba e que entontece,
às vezes, sem se ver, está tão perto!
*
O que separa, o que une, o que dispersa...
A dúvida tenaz nos atormenta...
A sede que tortura e que, perversa,
parece de si mesma estar sedenta...
*
Importa o que se diz, exacto o termo.
Importa o que se cala e dói no peito.
Importa uma cidade erguendo um ermo.
Importa o verbo mesmo sem sujeito.
*
A barca, até na hora derradeira,
espera a pomba e o ramo de oliveira..
*
*
José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
20 de Novembro de 1996.

12 - GABRIEL VIVE! * Caminhada



Tentei, ah, se tentei
honrar o testemunho recebido!
Errei,ah, tanto errei
e com severidade fui punido!

Sujeito definido,
 de queda em queda, vítima da lei,
fui réu escarnecido
e em vários desencontros me enredei.

A passo e por compasso reprimido,
caminhos palmilhei,
mas, sempre p'la mão, o dia havido
convicto desbravei.

E nesse dia havido,
e sempre por haver, eu me encontrei...


José-Augusto de Carvalho
Tavira, 13 de Junho de 1996

12 - GABRIEL VIVE! * Resistência

Por limpas e montados e olivedos,
perdi-me, num febril desassossego.
Por entre sombras, reprimi os medos.
Exausto, a casa, finalmente chego.

Salvei-me de armadilhas e emboscadas.
Em noites de vigília, fui maltês.
Atento, em todas as encruzilhadas,
pesava um passo só de cada vez.

Jazia o tempo em torva prostração.
E, dia a dia, em pérfido declínio,
era imolado em aras de aflição.

Mas quanto mais sofria o seu domínio,
mais resistia à raiva e à rendição
e livre alvorecer era um fascínio!


 
Gabril de Fochem
Lisboa, 2 de Maio de 1996.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!... * Registo



Registo

Entardeço,
neste outono de fim
e de espera.
Hoje, só reverdeço
primavera
na saudade de mim.
*
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Dezembro de 2010.

sábado, 1 de janeiro de 2011

05 - ESTA LIRA DE MIM!...* Dor



Os lábios comprimidos.
A boca é uma linha.
Nem gritos nem gemidos.
Apenas uma linha,
na roxa cicatriz
dos silêncios feridos,
calada, tudo diz.

José-Augusto de Carvalho
1 de Janeiro de 2011.
Viana*Évora*Portugal